sexta-feira, 26 de setembro de 2014

publicado a 19 de Setembro de 2014 pelo Jornal lusófono Plataforma de Macau

File photo of a child clasping a Mozambique flag in a suburb on the outskirt of the capital Maputo

PARTIDOS FAZEM BALANÇO POSITIVO DA CAMPANHA

                                                                            por: Estêvão Azarias Chavisso, Maputo

Poucos incidentes nos primeiros dias de caça aos voto para as eleições gerais de 15 de outubro

Os principais partidos políticos moçambicanos fizeram um balanço “positivo” das primeiras duas semanas de campanha eleitoral para as eleições de 15 de outubro em Moçambique.
A corrida às eleições gerais de 15 de outubro em Moçambique já começou -  são 45 dias em que os três principais partidos e seus respetivos candidatos presidenciais irão apresentar aos 128 distritos das 11 províncias do país os seus planos de governação.

Frelimo, partido no poder, Renamo, maior partido da oposição,  e o Movimento Democrático de Moçambique (MDM) apresentaram candidatos para os onze círculos eleitorais nacionais, para além dos dois da diáspora (África e Resto do Mundo) referentes à eleição para o Parlamento Nacional e para os 152 círculos relativos ao sufrágio para as dez assembleias provinciais.

Filipe Nyusi, (Frelimo), Afonso Dlakhama (Renamo) e Daviz Simango (MDM) são os candidatos à Presidência da República de Moçambique, sendo os três partidos políticos os únicos a concorrerem a todos círculos eleitorais.

As primeiras duas semanas de campanha eleitoral em Moçambique, iniciada a 30 de Agosto, foram marcadas pela presença dos candidatos às presidenciais nas províncias do norte e centro de Moçambique, os maiores círculos eleitorais do país.

Em declarações ao Plataforma Macau feitas em Maputo, os porta-vozes da Renamo, António Muchanga, e do MDM, Sande Carmona,   fizeram um balanço “positivo” das primeiras duas semanas de campanha eleitoral, apesar de destacarem “incidentes” ocorrido durante o processo.
“O processo está correr bem. No entanto, a Renamo não está no seu máximo. O presidente da Renamo, Afonso Dlakhama, ainda está em Maputo, devido ao processo da assinatura da declaração da Cessação das Hostilidades Militares. Ele ainda não se deslocou às outras províncias com vista a trabalhar diretamente com os seus eleitores”, disse António Muchanga.

Segundo o porta-voz do maior partido da oposição moçambicana, até mesmo os deputados e principais quadros da Renamo ainda não saíram de Maputo para trabalhar diretamente com a população. Entretanto, assegurou, dentro de dias a Renamo estará “a todo gás”.

A nível estratégico, explica o porta-voz, a Renamo irá dar primazia aos comícios e aos contctos interpessoais, espalhando a sua política de “adaptação de uma medida salarial consoante ao tempo e trabalho do cidadão moçambicano”.

Questionado sobre aprovação da Lei da Cessação das Hostilidades Militares em Moçambique, António Muchanga qualificou a atitude positiva, realçando que a mesma surge como instrumento jurídico em defesa dos “injustiçados”.

“ Consideramos a transformação do acordo da Cessação das Hostilidades Militares em lei um aspeto positivo, pois a mesma passa a constituir um instrumento jurídico em defesa dos que foram injustiçados pelo Governo”, afirmou.

António Muchanga, embora afirme que o processo está a correr positivamente, denuncia algumas infrações cometidas por alguns membros simpatizantes de outros partidos políticos, como a destruição de material de propaganda.

“Há alguns aspectos negativos, por exemplo, há localidades onde a Frelimo destruiu o material de propaganda da Renamo e de outros partidos políticos. Apesar disto, a Renamo tem dado continuidade aos seus trabalhos”, assegurou Muchanga.

Por seu turno, o porta-voz do MDM, Sande Carmona, também contactado pelo Plataforma Macau, considerou as primeiras duas semanas de campanha eleitoral positivas, embora denuncie, além casos de sabotagem de material de propaganda política, tentativas de assassinato a membros do MDM protagonizadas por supostos membros dos partidos adversários.

“O balanço dos primeiros dias de campanha é positivo, no entanto, porque os nossos adversários não sabem fazer um bom jogo político, há casos de sabotagem do material eleitoral e de tentativas de assassinato protagonizadas por membros dos partidos adversários”, alertou Carmona.

Segundo o porta-voz daquele partido político, os casos são já de conhecimento das autoridades competentes, no entanto, ainda não há esclarecimento.

“Os casos foram devidamente submetidos às autoridades. Mas lastimamos porque até hoje não houve pronunciamentos”, lamentou, explicando que embora o partido de Deviz Simango faça um balanço positivo das primeiras semanas da campanha, há uma preocupação com esses incidentes.

“O MDM está trabalhar, analisando todas condições para criar uma plataforma sólida para uma intervenção em todos processos decisórios do país”, assegurou Carmona.

O Plataforma Macau tentou entrar em contacto com o porta-voz do partido Frelimo, Damião José, que escusou-se a prestar declarações, alegando que o seu partido “está trabalhar” e na hora certa haverá um pronunciamento à imprensa.

 PM-FIM

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Opinião/Educação: Desafio de uma Juventude: o Futuro de uma Nação




                                Desafio de uma Juventude: o Futuro de uma Nação 

                                                             

                                 Por:
Estêvão Azarias Chavisso


Trinta e nove anos passaram-se desde que, a 25 de Junho de 1975, Samora Machel, primeiro presidente de Moçambique independente, proclamou a independência nacional. Fomos, durante anos, alvos da brutalidade imperialista. 


Moçambique era apenas mais uma província ultra-marina portuguesa. Ao lado dos povos asiáticos e americanos assistimos de espíritos impávidos e serenos à expansão europeia do século XV, vendo nossas fronteiras invadidas pelo ocidente no âmbito da penetração mercantil europeia.

Hoje, mais que nunca, Moçambique desponta no horizonte da história, exigindo um lugar e um estatuto soberano no palco do mundo. A esperança, antecedida por um conflito militar que durou que durou 16 anos, paira no espírito da jovem nação. 

Se, por um lado, os recursos recém-descobertos são a nossa riqueza incalculável, por outro, nossa incapacidade de converte-los em benefício dos moçambicanos é nossa ignorância incomensurável.

A todo gás, as companhias extractivas multinacionais (Anadarko, a Vale, a Rio Tinto, a EN1), num autêntico paraíso fiscal, exploram e escoam, através da linha de Sena, nossos recurso com o velho argumento da criação de novos postos de trabalho  em benefício da comunidade.      
    
A falta de mão-de-obra qualificada, a má qualidade da educação técnica e profissional e a proliferação de companhias estrangeiras no território moçambicano, além de vários outros problemas sociais, tornam cada vez mais utópico o sonho de um país realmente independente e desenvolvido. Moçambique, nos nossos dias, vive o entre sim e o não, na ideia da esperança de um futuro contingente. 

Nossa identidade cultural, escamoteada por uma suposta “globalização”, perde-se com tempo. Assistimos a era do abandono dos nossos valores e das nossas normas. Nossa etnicidade, realidade antropológica que pertence as nossas comunidades, é gradualmente substituída por uma ignorância cultural. 

Nossa variedade linguística, do Rovuma ao Maputo e do Zumbo ao Índico, perde seu estatuto de originalidade, legitimando, portanto, um surto ideológico tribalista e regionalista. 

Ontem, quando escravos, alguém nos libertou. Hoje, supostamente livres, alguém nos acorrenta. Hoje, mais que nunca, nosso futuro – como moçambicanos - é incerto e pertencente ao ocidente. 

Somos, na nossa época, confrontados com um tipo de realidade; um mundo vivo, dinâmico e moderno, onde reina quem pode e obedece que deve. No meio de tantas turbulências, uma pergunta imbuída de conforto surge: onde estará a solução dos nosso problemas?


 Nossos Problemas: Nossa Solução
Há quem, do auge de um cepticismo exacerbado, não vê esperança num futuro próximo, outros, do alto do seu optimismo, acreditam na mudança e num novo amanhã. 

Quem fala de esperança, explicitamente, invoca a expectativa. A expectativa, a probabilidade de realização em tempo enunciado, torna-se um fundamento, um sentido para existência do povo moçambicano. Entretanto, o desenvolvimento de Moçambique só é possível por quanto que seja desencadeado um projecto contínuo de educação centrado na juventude. 

Uma educação, no seu todo, centrada na juventude significaria, em última instância, um projecto que investe no futuro apostando no presente. 

A juventude, portanto, é a condição seno Qua. none para o tão desejado “ futura promissor”. Como diria Severino Ngoenha, a solução para os nossos problemas estaria na reflexão sobre a questão; que tipo de educação? Para que Moçambique? 

Investir no estatuto epistemológico da juventude seria pensar num futuro diferente para o nação.  
O gás, estimado em 180 triliões de pés cúbicos, o carvão, escoado em cerca de 6 milhões de toneladas por ano, só em Moatize, são nossos recursos, apenas por quanto que consigamos explora-los em nosso benefício. 

Essa deve ser a missão da nossa juventude do Rovuma ao Maputo; apostar na educação com claro e único objectivo: converter os recursos minerais moçambicanos em benefícios para o povo.

Eis, portanto, o desafio que proponho; uma reflexão sobre o nosso estatuto técnico e epistemológico, enquanto jovens moçambicanos; a esperança de uma nação.


                                                                                      

sábado, 13 de setembro de 2014

Publicado a 1 de setembro de 2014 pelo Jornal lusófono Plataforma de Macau, da China

“O QUE FOI ASSINADO NÃO FOI A PAZ”

                                                                            por: Estêvão Azarias Chavisso,Maputo    

Rafael Shikhani, historiador e analista político moçambicano, diz ao Plataforma Macau que a paz só acontecerá com a desmilitarização total da Renamo

O historiador e analista político moçambicano Rafael Shikhani defende que a assinatura do cessar-fogo em Moçambique não constitui uma paz definitiva, considerando que a sua“consolidação no país passa, necessariamente, pela desmilitarização da Renamo”, maior partido da oposição.
Passadas 74 rondas de negociações entre o Governo moçambicano e a Renamo, finalmente, foi assinada, na noite de domingo, em Maputo, a declaração de cessação das hostilidades no país. O memorando, que marca um cessar-fogo imediato, será visado em uma cerimónia pública, numa data ainda indeterminada, entre o chefe-Estado, Armando Guebuza, e o presidente da Renamo, Afonso Dhakhama.
O acordo, assinado pelo chefe da delegação do governo e ministro da Agricultura, José Pacheco, e pelo líder da delegação da Renamo, Saimone Macuiana, marca o término dos confrontos entre exército e a guerrilha armada da oposição, que resultaram em várias mortes na província de Sofala, centro do país, ao longo do troço que liga o norte ao sul de Moçambique.
O historiador e analista político, Rafael Shikhani, em declarações em Maputo ao Plataforma Macau, defendeu que a assinatura do acordo entre o governo e a oposição não significa a uma paz definitiva, na medida em que, mesmo ao abrigo de um acordo, se a Renamo não desmilitarizar o seu braço armado, o clima de instabilidade continuará em Moçambique.
“ Não foram assinados os acordos de paz. Na verdade, foi simplesmente assinado o fim das hostilidades. Há vários aspetos que devem, a partir de agora, ser observados. Por exemplo, o primeiro é desmilitarização do braço armado da Renamo. Para que se diga que o país está definitivamente em paz, a Renamo deve ser desmilitarizada”, disse.
Segundo Shikhani, Moçambique vive um clima de paz armada, desde 1992, data da assinatura dos acordos gerais de paz que deram término a guerra civil de 16 anos.
“Desde 1992, vivemos, 22 anos de uma paz armada, sem saber o que será de nós no futuro. Não existe em nenhum lugar do mundo um país com um partido político armado. Nós , durante esse tempo, tínhamos a paz mas não a estabilidade”, defendeu.

PAPEL DO GOVERNO NA MANUTENÇÃO DA PAZ
No entanto, apesar de ceticismo quanto ao futuro da paz em Moçambique, o analista saudou a atuação do Governo, destacando o seu papel na materialização do que já foi acordado.
“O Governo moçambicano teve uma atuação positiva na situação, desde a promulgação da Lei da Amnistia, a abertura para revisão da Lei Eleitoral entre outros aspetos. No entanto, é importante que a Renamo também assuma suas responsabilidades, transformando-se realmente num partido político”, afirmou.
Questionado sobre o facto do acordo ter sido alcançado às portas da eleições gerais em Moçambique, agendadas para outubro, o historiador disse que, apesar da paz interessar aos moçambicanos em geral, o principal beneficiário é o presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, na medida em que as campanhas eleitorais começam em breve.
“ A paz interessa a todos, quem ganha é o país todo. Todos moçambicanos queriam que isto acabasse bem. No entanto, veja que o período da campanha eleitoral está próximo, aliás, a pré-campanha até já se iniciou, e o candidato da Renamo estava impossibilitado de participar se a situação continuasse como estava”.

PM-FIM 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Publicado a 26 de Julho de 2014 pelo Jornal lusófono Plataforma de Macau, da China

“ALFÂNDEGAS MOÇAMBICANAS DIFICULTAM IMPORTAÇÃO DE PRODUTOS DA CHINA”

 

 produtos1

                                                                                             por: Estêvão Azarias Chavisso, Maputo

O empresário moçambicano Rui Machava, que importa produtos da China há 10 anos, acusa a “burocracia  excessiva “ nos serviços aduaneiros de Moçambique de dificultar a importação de produtos.

made-in-chinaDe acordo com dados diplomáticos chineses,  o comércio entre a potência asiática e os  países lusófonos atingiu, só nos dois primeiros meses do corrente ano, 19. 68  Bilhões de dólares.
Para o caso específico de Moçambique, ainda segundo os mesmos dados, as relações comerciais com a China atingiram o valor total de 275 milhões de dólares, dos quais 178.9 milhões relativos a produtos exportados da China e os restantes 96.5 milhões de dólares das exportações  de Moçambique, estas num aumento de 16.43%.
 Em Moçambique, a evolução do valor da importação e exportação decorre com participação ativa das pequenas e médias empresas (PME), que contribuem diretamente para o crescimento da economia nacional.

Rui Machava, proprietário da RJM produções, uma PME vocacionada na prestação de serviços na área de serigrafia, vencedora do concurso das melhores pequenas e médias empresas de Moçambique organizado pela STV em parceria com o Banco Comercial de Moçambique (BCI), em declarações ao Plataforma de Macau, em Maputo, afirma que o principal problema das pequenas e médias empresas de Moçambique na importação de produtos da China está relacionado com os serviços alfandegários moçambicanos. 

 “Os nossos serviços alfandegários são muito lentos e excessivamente burocráticos. Não existe um dispositivo legal prático que comprove a autenticidade do produto importado, há sempre uma desconfiança que as autoridades têm para com o empresário. Na verdade, isto revela falta de formação por parte dos fiscalizadores, na medida em que, mesmo com os documentos todos em dia, os fiscais dizem haver problemas”, disse.

“Nalgum momento, devido às tais desconfianças, a mercadoria fica retida por três ou quatro dias supostamente para comprovação da autenticidade do produto. O pior é que quem paga por esses três os quatro dias é o empresário, o que é um prejuízo para o nosso bolso”, acrescentou Machava.

“GATO POR LEBRE”

O empresário moçambicano apontou ainda a comunicação e a falta de atenção dos fornecedores como um problema no processo de importação de produtos da China, na medida em que no mercado chinês a maior parte dos fornecedores não fala línguas estrangeiras , como o inglês, o que torna necessária a presença de guias e tradutores para fácil comunicação. Alguns fornecedores, ainda segundo Rui Machava, no âmbito da transação comercial, por distração acabam trocando os produtos, o que lesa o empresariado moçambicano.

“As dificuldades que encontramos no decorrer deste processo são a questão de trocar do ´gato por lebre´ e a questão da comunicação na China. Por vezes, devido à distração de alguns fornecedores, a gente escolhe uma coisa e recebe outra. No momento de corrigir o erro, começa um outro problema, o da comunicação, pois a maior parte dos chineses que nos vendem esses produtos não conhecem outra língua senão a sua, nem sequer o inglês, então recorremos aos guias e tradutores, mas estes estão ali apenas no momento de compra, não sempre”, disse Machava.

A importação de produtos da China para comercialização em território moçambicano é rentável, e, apesar das dificuldades mencionadas, constitui base de subsistência de várias PME moçambicanas, defende o empresário.

“Mesmo com essas dificuldades, essa é a nossa base de subsistência. Alguns preferem importar da nossa vizinha África do Sul, mas, no entanto, é óbvio que nesse caso o empresário está a pagar duas vezes, na medida em que a África do Sul não produz, também importa da China. A diferença é que o capital deles é mais forte a nível de créditos, pois os bancos sul-africanos ajudam. Em parte, é o que devia ser feito em Moçambique, também”, afirmou.

Para o empresário, há necessidade de uma maior atenção por parte das autoridades moçambicanas nos processos de importação feitos pelas PME ao mercado chinês, pois essa é a base para muitas das empresas que contribuem directamente para economia moçambicana.

“Eu importo produtos da China há praticamente 10 anos, e posso afirmar não há uma evolução prática. Com a Janela Única, mecanismo dos serviços alfandegários que facilita a interação entre o empresariado moçambicano e os fornecedores estrangeiros, as coisas até melhoraram. Já não precisamos de gestores, a comunicação é praticamente direta. É importante que haja atenção para esta questão, especialmente no caso da importação de produtos da China, na medida em que a maior parte dos empresários moçambicanos importam da China, principalmente as PME.

 Os empresários não querem nenhum tipo de facilitação ou tratamento especial, apenas que a China esteja aberta a que compremos os produtos e voltemos sem ser barrados por ninguém. Vontade de abandonar o negócio não falta. Rogamos a quem de direito para que se resolva esta questão”, afirmou.

PAPEL DAS PME NA EXPORTAÇÃO DE PRODUTOS MOÇAMBICANOS

Questionado sobre a exportação das PME de Moçambique para China, o empresário disse não ser fácil para as mesmas, pois o Governo moçambicano não está proporcionar mecanismo para melhor exploração do potencial de Moçambique.

“Eu não exporto, apenas importo, infelizmente. Não seria fácil, estão a faltar mecanismos que facilitem as exportações do que Moçambique tem de melhor. O governo tem de alocar mecanismo para uma melhor atuação por parte das empresas moçambicanas. Isso, sim, faria com que os empresários moçambicanos começassem a exportar seus produtos também”, defendeu.

O Plataforma Macau tentou entrar em contato com a Autoridade Tributaria (AT) de Moçambique, entidade máxima de fiscalização aduaneira no país, mas o responsável pelo gabinete de comunicação e imagem daquela instituição, Ricardo Nhantumbo, disse não estar autorizado a prestar esclarecimentos sobre assunto.

Plataforma de Macau/Fim

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Publicado a 23 de Junho de 2014 pelo jornal lusófono Plataforma de Macau, da China

http://www.plataformamacau.com/lusofonia/mocambique/taiwan-um-parceiro-ausente-em-mocambique/



TAIWAN: UM PARCEIRO AUSENTE EM MOÇAMBIQUE

                                         
                                                                                                    Por:Estêvão Azarias Chavisso, Maputo


A inexistência de relações diplomáticas entre Moçambique e Taiwan afasta a ilha nacionalista dos negócios do país da África Austral. Mas especialistas ouvidos pelo Plataforma Macau consideram que, apesar disso e da China, as duas partes podem ter maior intercâmbio económico.

O maior parceiro comercial e grande aliado político de Moçambique é a China e só esse facto basta para explicar a quase ausência de negócios de Taiwan no país lusófono do sul de África. Os poucos números que se conhecem dessas trocas comerciais são reduzidos, e Taiwan continua fora do pelotão de asiáticos que investem fortemente em Moçambique: China, Japão, Coreia do Sul, Vietname, Tailândia e Índia.

Para o empresário moçambicano Dino Foi, que viveu e estudou na Formosa,  a “culpa” é da geopolítica, leia-se da rivalidade entre China e Taiwan, e da “falta de vontade” do governo moçambicano em estabelecer relações comerciais com a ilha.

“ Na verdade, o Estado moçambicano receia um eventual desentendimento com a China. No emntanto, a partir do momento em que assumimos Taiwan como uma província chinesa, Moçambique pode efectivamente manter relações comercias com Taiwan sem problemas. Existem vários ministros e diretores nacionais africanos que, apesar de manterem relações diplomáticas com a China Popular, já estiveram em Taiwan à procura de oportunidades de negócio”, disse Dino Foi, entrevistado em Maputo pelo Plataforma.

Também para Maria Gustava, responsável pela Direção da Ásia/Oceânia do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Moçambique, a inexistência de relações diplomáticas não condiciona as relações comerciais. “Não há problema nenhum em mantermos relações comerciais com Taiwan, tanto que existem empresários taiwaneses a investirem em Moçambique”, disse Maria Gustava, ao Plataforma.
A diretora afirmou que Moçambique não pode ter relações diplomáticas com Taiwan pois a Formosa não é reconhecida pela ONU.

“Nós não reconhecemos Taiwan como um Estado, por isso não podemos ter relações diplomáticas com o mesmo. A nossa constituição é guiada pelos princípios da ONU, se a ONU não reconhece Taiwan como um Estado, nós também não o faremos”, realçou.

A diretora defende ainda que não é verdade que Moçambique não mantém relações económicas com Taiwan devido ao receio de um eventual desentendimento com a China. “Nós somos um Estado soberano, as nossas decisões são autónomas. Não é verdade que haja um temor por eventual desentendimento com a China”, disse a diplomata. Questionada sobre os níveis de investimento taiwanês em Moçambique, Maria Guistava admitiu disse que o governo não tinha dados pois não existe uma entidade estatal que monitore o número do investimento nos dois Estados.

Segundo Foi, ainda em 2013, as autoridades moçambicanas travaram ajuda humanitária enviada pela Formosa, por altura de grandes cheias no país. “Os taiwaneses mandaram uma equipa com 16 médicos, 39 enfermeiros e dois contentores de medicamentos para ajudar os moçambicanos afectados pelas cheias. No entanto, os médicos taiwaneses não foram autorizados a trabalhar e tiveram de voltar. As pessoas vieram ter comigo a questionar, e eu fiquei sem saber o que fazer ou que dizer”, disse Foi, presidente da companhia Foi Strategic Group.


GRANDES OPORTUNIDADES
DE NEGÓCIO

Apesar dessa situação, Foi acredita que há um grande espaço para Moçambique e Taiwan desenvolverem relações mais estreitas na economia. “Atualmente, Taiwan é, talvez, a 19º economia mundial, com um PIB per capita de cerca de 22 mil dólares, com salário mínimo de cerca de 700 dólares e com nível zero de analfabetismo. Taiwan tem em reservas líquidas de moeda estrangeira cerca de 300 mil milhões de dólares americanos. Em contrapartida, o mesmo tem relações diplomáticas com menos de 23 países. Taiwan tem uma economia altamente robusta. É um verdadeiro tigre asiático que a própria China não pode ignorar, então quem somos nós para ignorar? Moçambique não devia desprezar um Estado nesta posição”, frisou.

E o empresário, que dirige a fundação taiwanesa Tsu Chi Foundation, de ajuda humanitária, em Moçambique considera que as caraterísticas do investimento de Taipé no estrangeiro são diferentes das de Pequim.

“A China depende muito do carvão, Taiwan não. Para Taiwan, o carvão é uma alternativa que talvez até os próximos 10 anos vai terminar. Taiwan não importa madeira não processada, nem castanha não processada. Para Taiwan, o que interessa é a presença e a eficácia do empresariado taiwanês em África”, afirmou.

E deu um exemplo: “Obviamente, quando Taiwan quer fazer uma relação comercial tem puxado, até de uma forma forçosa, a parte diplomática. Mas, Taiwan sabe que não tem condições favoráveis para forçar relações diplomáticas com qualquer Estado africano, tanto mais que neste momento China e Taiwan mantêm relações muito boas. Então, a Formosa contenta-se com relações comerciais, por exemplo, Taiwan tem relações comerciais com a África do Sul, muito embora África do Sul tenha relações diplomáticas com a China”.

O mesmo ponto de vista foi acolhido por Lourenço Sambo, diretor geral do Centro de Promoção de Investimentos (CPI) de Moçambique, que defende que o facto de Moçambique não manter relações diplomáticas com Taiwan não afeta as relações comerciais entre as duas partes.

“A nível geral, posso afirmar que existem relações comerciais entre moçambique e Taiwan, apesar de não existirem relações diplomáticas. Uma coisa é comércio, outra coisa totalmente diferente é política”, disse, ao Plataforma. “ É verdade que não existe nenhuma delegação comercial moçambicana em Taiwan, e muito menos uma delegação taiwanesa em Moçambique. O que existe são empresários taiwaneses que investem em Moçambique. Nós recebemos empresários do Taiwan sem problemas, por exemplo, agora vai um grupo de empresários moçambicanos para Taiwan interessados em investir na área do turismo, não há problema nenhum”, firmou Sambo.

 

APROVEITAR A SUAZILÂNDIA

Dino Foi considera que seria “fácil” incrementar as relações comerciais com os dois países, sob uma fórmula muito utilizada pela Formosa. “Taiwan tem um modelo de atuação muito interessante, que consiste na instalação de uma autoridade de exportação e importação, o que facilita o processo de interação comercial. Seria uma boa ideia para implementar em Moçambique”, defendeu, propondo a criação de uma câmara de comércio bilateral.

“Não precisaríamos, num primeiro momento, de uma intervenção do Estado moçambicano como tal. Mais tarde, poderia ser criada uma espécie de representação comercial que não precisa ser demasiadamente burocrática. Este seria um mecanismo para estabelecer relações comerciais” defendeu.

De acordo com o empresário moçambicano, numa primeira fase, a embaixada de Moçambique na vizinha Suazilândia, poderia ser importante pois as duas partes têm relações com esse reino da África Austral.

“A situação em que nos encontramos é complicada. Eu, até certo ponto, tenho jogado o papel de embaixador de Moçambique em Taiwan, mesmo sem credenciais do Estado moçambicano. Em Taiwan, ninguém faz um movimento a nível comercial ou diplomático com Moçambique sem me procurar, no entanto, é necessário que o Estado moçambicano comece a preocupar-se com isso. Neste exacto momento, por exemplo, eu estou a namorar um grupo de empresários taiwaneses dispostos a investir em Moçambique na área da agricultura, desde que haja abertura”, assegurou.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Publicado a 6 de Junho de 2014 pelo jornal lusófono Plataforma de Macau, da China.

fonte: http://www.plataformamacau.com/cultura/brasil-no-cinema-de-mocambique



BRASIL NO CINEMA DE MOÇAMBIQUE


                                                                                            por: Estêvão Azarias Chavisso, Maputo
                                                                         
Associado à criação do cinema moçambicano, e sob a influência de Ruy Guerra, o apoio brasileiro foi mais decisivo na produção do que na estética, segundo realizadores dos dois países.

Quase sempre que se fala no cinema moçambicano, faz-se uma ligação ao Brasil e à importância que os seus cineastas tiveram na implantação da sétima arte no período pós-independência do país africano. Ruy Guerra, o moçambicano que se tornou famoso a fazer cinema no Brasil, e, em sentido contrário, Licínio de Azevedo, Chico Carneiro e José Celso, cineastas brasileiros radicados ou que passaram por Maputo, são as grandes referências dessa relação.

A “pegada” brasileira no cinema moçambicano esteve apenas restringida aos modelos de produção e aos técnicos brasileiros do setor, defendem os realizadores Sol de Carvalho, moçambicano, e Licínio de Azevedo, brasileiro, entrevistados pelo Plataforma de Macau.

E os dois concordam igualmente no destaque que deve ser dado à importância de Ruy Guerra na formação e criação do primeiro Instituto Nacional de Cinema (INC) em Moçambique.

Após a independência, em 1975, o governo moçambicano entendeu que o cinema poderia ser um instrumento para difusão de políticas e ideias de reconstrução da nação moçambicana. As primeiras manifestações cinematográficas no país eram de carácter político e defendiam, principalmente, o ideal da unidade nacional moçambicana.

Licínio de Azevedo, realizador radicado em Moçambique desde a independência, fundador da Ébano, primeira produtora de cinema independente em Moçambique, recorda que a condição histórica em que o país se encontrava obrigava os cineastas a “engajarem-se” em prol da construção de uma imagem de Moçambique.

“Desde o seu começo, o cinema moçambicano teve uma ligação com a política. Levou muito para os cineastas se libertarem, a ideia e os temas eram indicados pelas autoridades. Aliás, até hoje, tudo que é criado em Moçambique está muito ligado ao lado institucional ou educativo”, diz o realizador, cujo último filme, “Virgem Margarida”, data de 2012.

O INC E OS DOCUMENTÁRIOS PIONEIROS

Na esteira deste projeto de difusão de ideias nacionalistas, Samora Machel, primeiro Presidente de Moçambique independente, criou o Instituto Nacional de Cinema (INC), para a interação entre cineastas moçambicanos, franceses, portugueses, cubanos e brasileiros. Este projeto, que viria a formar os principais realizadores do cinema moçambicano, deu início à história do cinema em Moçambique.

Para Azevedo, o documentário, opção política da época escolhida pelo INC, foi uma “galinha dos ovos de ouros”, e o país tornou-se na primeira nação africana a introduzi-los.

“Na época, décadas de 1970 e 1980, nenhum outro país africano fazia documentários. A história de Moçambique, em todo o processo de independência, teve muitos momentos bons, que viriam a ser retratados, de forma talentosa, pelos próprios documentários”, afirmou.

Azevedo defende que o documentário moçambicano passou a ser uma referência ao nível da África, tendo levado cineastas de países como Africa do Sul e Namíbia, recém-libertados do ‘apartheid’, a inspirarem-se na ideia moçambicana, em oposição aos filmes de ficção patrocinados por países como a França, que influenciavam o cinema africano na altura.

Neste processo de criação do INC, destaca-se Ruy Guerra, moçambicano nascido em 1931 em Lourenço Marques, 
atual Maputo, e radicado no Brasil. Após a independência, participou no nascimento do cinema moçambicano, recrutando cineastas e colaboradores brasileiros para Moçambique e montando o INC, sob a ideia de ser possível fazer filmes com poucos recursos.

“Eu apreendi a fazer filmes vendo o Ruy fazer. Ele mostrou que era possível fazer cinema de uma forma bem simples e barata, com poucos meios e utilizando a realidade”, afirmou Licínio.

 A mesma ideia foi partilhada por Sol de Carvalho, autor da curta-metragem “O Búzio”, de 2009.

“Em minha opinião, não houve uma influência estética do Ruy no cinema moçambicano. Na verdade, a influência do Ruy esteve exatamente na produção. Ele traz um grupo grande de brasileiros para ajudar a organizar o sistema de produção de Moçambique. Daquilo que podemos chamar os modelos de produção, há uma influência do Ruy, mas não é uma influência brasileira, é de alguns cineastas brasileiros que foram liderados por ele”, defende o realizador.

Alguns desses realizadores e técnicos acabaram por ficar em solo moçambicano, destacando-se no processo da criação da identidade da cinematografia moçambicana, como Labi Mendonça e Chico Carneiro entre outros.
Mesmo assim, Licínio de Azevedo insiste que nas relações de cinema entre Moçambique e o Brasil, a influência, se existiu, foi “ao contrário”.

“Naquela época viam-se aqui filmes de todo mundo, desde o cinema russo, ao da RDA, Cuba, Portugal e, também, do próprio Brasil.

Na verdade, a grande influência do cinema brasileiro no cinema moçambicano, por incrível que pareça, foi uma influência moçambicana. Foi a influência do Ruy Guerra, que era moçambicano.

Ele ajudou a pensar o INC, trouxe vários colaboradores brasileiros e essas pessoas, individualmente, como técnicos, tiveram uma importância fundamental na formação dos cineastas moçambicanos, no entanto, eles não trouxeram o cinema brasileiro”, reiterou.

O “NACIONALISMO POSITIVO” DO KUXA KANEMA

Segundo Sol de Carvalho, diretor da premiada longa-metragem “Impunidades Criminosas” (2013) e fundador da produtora de cinema Promarte, a vinda de um grupo de cineastas brasileiros não significou a “translação” do cinema brasileiro para o território moçambicano.

E, para ele, o momento marcante foi o surgimento do Kuxa Kanema, um sistema de documentários que garantiam a produção nacional.

“Com Kuxa kanema, aí sim, há uma influência direta do cinema novo com o cinema moçambicano. Porque, no cinema novo, a ideia era não ficarmos sujeito a quaisquer empecilhos que são os sistemas de produção. Essa é a ideia do Ruy, com base nos recursos locais garantir esse lado nacionalista positivo. Depois disso, Ruy percebe que, por um lado, o modelo constitucional de cinema na altura não iria funcionar como desejava, por outro, aparece a televisão, o que marca uma nova maneira de tratar das coisas”, reiterou Carvalho.

E o cineasta considera mesmo que o cinema brasileiro já perdeu a influência que teve do ponto de vista direto da ligação dos meios de produção.

“Sendo país que fala a mesma língua com Moçambique, tem também a história de ter feito cinema com condições muito fracas como Maçambique. Portanto, a gente olha sempre para o Brasil como um ponto de referência. No entanto, numa análise mais profunda percebermos que não houve muita influência, afirmou.


PM/FIM

terça-feira, 10 de junho de 2014

Publicado a 16 de Maio de 2014 pelo jornal lusófono Plataforma de Macau, da China.

(http://www.plataformamacau.com/mocambique/esperanca-de-paz-na-encruzilhada-decisiva)

ESPERANÇA DE PAZ NA ENCRUZILHADA DECISIVA


                                                                                                        por: Estêvão Azarias Chavisso, Maputo


Um acordo de paz foi conseguido numa altura em que Moçambique se prepara para um segundo semestre decisivo, com eleições presidenciais e a definição de estratégias para a indústria mineira.

A esperança de uma paz prolongada domina os espíritos em Moçambique, um dos países mais pobres do mundo, mas com o potencial de quem detém riquezas incalculáveis. A contradição entre a miséria que existe e a fortuna “ao virar da esquina” surge em todos os retratos da nação e explica muito do conflito político e militar dos dois últimos dois anos. Depois de longas – por vezes exasperantes – negociações, o Governo e a Renamo, principal partido da oposição, voltaram a entender-se. Tudo indica que as armas agora se calem, às portas de um segundo semestre, com eleições presidenciais e a aprovação de um pacote legislativo crucial para regular os impostos na indústria mineira.

Moçambique elegerá em outubro um novo Presidente, provavelmente o candidato da Frelimo, partido no poder desde a independência, em 1975. Filipe Nyusi é favorito numa corrida que deverá contar com o veterano líder da Renamo, Afonso Dhlakama, que perdeu todas as anteriores eleições democráticas; e ainda com DavizSimango, jovem líder do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), pequeno partido da oposição que governa três das principais cidades do país: Beira, Nampula e Quelimane.

MUDANÇA DE ESTILO
O atual chefe de Estado, Armando Guebuza, não pode concorrer a um terceiro mandato, por imperativo constitucional, pelo que a maior expectativa reside numa provável mudança de estilo: do antigo combatente e principal empresário do país para o jovem Nyusi, criado no período pós-independência e formado no estrangeiro. Apesar de alguns analistas – como o britânico Joseph Henlon ou o moçambicano Carlos Castel-Branco – considerarem Nyusi uma “solução de continuidade”, a sua eleição poderá marcar o fim de um estilo businesslike e autoritário, associado aos últimos dez anos de governação Guebuza.

O veterano jornalista moçambicano Marcelo Mosse, por exemplo, considera que a ascensão de Nyusi “corresponde a uma recomposição do poder no seio da Frelimo”, onde dirigentes históricos como Joaquim Chissano e Alberto Chipande voltam a ter influência. Esta “recomposição” é importante numa altura em que o país se prepara para colher os primeiros grandes dividendos da mineração do carvão e da extração de gás natural, indústrias estratégicas mas em fase ainda incipiente. O potencial das exportações de carvão tem sido penalizado por infraestruturas obsoletas e pela destruição causada por diversos atentados atribuídos à Renamo. Se laborarem em pleno e escoarem o carvão até aos portos do Índico, as grandes mineiras internacionais em Tete poderão tirar os maiores benefícios de reservas estimadas em 20 mil milhões de toneladas. No médio prazo, estima-se que Moçambique poderá ultrapassar a África do Sul como maior produtor africano e carvão.

A TODO O GÁS
As reservas de gás estão estimadas em 180 triliões de pés cúbicos e até final do ano esperam-se importantes decisões sobre a dimensão, a propriedade e a localização de uma unidade de liquefação. O domínio da extração por parte de grandes multinacionais como a brasileira Vale, a norte-americana Anadarko ou a italiana ENI tem sido associado a exagerados favorecimentos fiscais. Um dos grandes debates em curso centra-se precisamente na oportunidade de reverter a situação através do novo pacote legislativo, que inclui a revisão da lei do Petróleo.
A proposta governamental continua contudo a gerar críticas, como as proferidas pelo professor da Universidade de Columbia (Estados Unidos), JenikRandon, que denuncia o papel simultâneo do Estado como empresário e regulador: “Isso coloca o Estado numa posição em que os seus interesses comerciais colidem com a sua função reguladora e protetora dos interesses nacionais”, sustenta. Outras vozes da sociedade civil denunciam a falta de um verdadeiro debate nacional sobre a matéria. Mas o facto é que a discussão teve lugar no Parlamento, com a participação do partido do Governo e das forças da oposição.

DÍVIDA CRESCENTE
O hemiciclo tem também debatido a crescente dívida pública, que totaliza 6,75 mil milhões de dólares – 29.6% do PIB – com investimentos polémicos como o da compra em França de uma frota de atuneiros (1.100 milhões) ou do empréstimo de 550 milhões, contraído ao EximBank (China) para a construção da Cidadela Parlamentar. A dívida voltou aos níveis da década de 1980, mas o ministro das Finanças, Manuel Chang, que acompanhou os dois últimos presidentes, considera-a “sustentável”.

Embora inédito, o dinamismo da economia não esconde os fortes constrangimentos que enfrenta quem quer investir, nomeadamente o ambiente de corrupção generalizada e a pesada máquina burocrática, que ainda inquinam o ambiente de negócios no país.

A proliferação de guindastes em Maputo – capital até agora adormecida – onde os cargueiros formam agora longas filas no porto, ou a abertura de estradas, de escolas e de centros de saúde, mesmo nos locais mais recônditos do país, mostram um país em franco crescimento e com um futuro que só pode ser prometedor. Mas esse quadro promissor não faz ainda esquecer a dura realidade de uma população predominantemente jovem e rural. É um fenómeno muitas vezes descrito como o “paradoxo” de um “país de sucesso”, com taxas de crescimento acima dos 7% e uma população geralmente desempregada, acossada por epidemias e desnutrição, com altas taxas de mortalidade e que vive com menos de um dólar por dia.

PM/FIM

sábado, 22 de março de 2014

Jornalismo Contemporâneo em Moçambique



Um Desafio do Jornalismo Contemporâneo em Moçambique; a Era Digital

                                                                                                       
                                                                                                       Por: Estêvão Azarias Chavisso
Um dos principais debates, actual em todo mundo, que preocupa os comunicólogos dos grandes centros de pesquisa comunicacional nas mais célebres academias dos últimos anos, está relacionado com a questão da posição da imprensa contemporânea face a presente época das grandes Tecnológicas de Informação e Comunicação (TIC), a “ era digital”. A questão das novas tecnologias, na verdade, não só preocupa os comunicólogos e jornalistas como também é dilema para todos cientistas sociais de todas esferas do conhecimento.

A Era digital, ou era da informação como é também conhecida, é o período posterior a “era Industrial” – etapa em que a indústria fora o principal sector da economia. A era digital data do início da década de 80, embora sua base tenha sido criada na década de 70, com invenções como o microprocessador, pela empresa multinacional norte-americana Intel Corporation, a rede de computadores, inovada pelos cientistas americanos Leonard Kleinrock e Paul Baran, e o computador pessoal.

Imersos nesta rápida evolução tecnológica iniciada no século XX,  as áreas do saber científico e os respectivos cientistas, já no século XXI, veem-se no dever de reflectir sobre sua posição, seus estatutos e seus modelos de actuação face a nova época da história.


Na esteira da evolução científica deste século , nasce uma nova forma de fazer jornalismo. As aclamadas TIC's advêm, nitidamente, para dinamizar a circulação de informação. Através dos blogs, das redes sociais e dos sites a notícia torna-se de imediato ubíqua – está em todo lado, instantaneamente. 

Neste contexto, dá-se início a uma série de debates em torno do homem e dos diversos campos do saber neste novo mundo. O jornalismo, em particular, sendo uma área muito nova em ralação as outras ciências, vê-se a necessidade de reflectir profundamente sobre tais  mudanças dentro do contexto da sua realidade política, social e económica. 

Nasce, portanto, a reflexão sobre a influência das mudanças tecnológicas na imprensa contemporânea. 
No entanto, uma análise sobre a relação entre a era digital e imprensa contemporânea deve ser descurada da generalização, pautando, desta feita, por uma particularização. Os problemas que a imprensa "ocidental" enfrenta não são os mesmo que a imprensa africana ou asiática enfrenta. Os problemas da imprensa moçambicana, por exemplo, são diferentes dos problemas da imprensa portuguesa. 

Se a transição para uma nova era digital no que tange as ciências da comunicação exige mais na capacitação do jornalista, o que implica a necessidade de uma actuação mais pujante por parte das academias de formação dos jornalistas, Moçambique, por incrível que pareça, ainda aceita que a actividade jornalística seja exercida por indivíduas não formados na área.  

Tomemos como exemplos os seguintes casos; Moçambique e Portugal. Observem, os estatutos que regem a actividade jornalística portuguesa, no que concerne ao Título profissional, no artigo quarto da (Lei n.º 1/99 de 13 de Janeiro de 1998) preponderam que: “É condição do exercício da profissão de jornalista a habilitação com o respectivo título, o qual é emitido por uma Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, com a composição e as competências previstas na lei”. Por sua vez, a lei de imprensa moçambicana prevê, no que concerne a definição de jornalista, no artigo 26 da lei número 18/91, que: “entende-se por jornalista, para efeitos da presente lei, todo profissional que se dedica a pesquisa, recolha, selecção, elaboração e apresentação de acontecimentos sobre forma noticiosa, informativa ou opinativa”.   

Em Portugal nenhum órgão com actividade no domínio da comunicação social pode admitir ou manter ao seu serviço, como jornalista profissional, indivíduo que não se mostre habilitado, nos termos do artigo quarto, salvo se tiver requerido o título de habilitação e se encontrar a aguardar a decisão. Já em Moçambique, como afirmam algumas personalidades da praça, qualquer um pode ser jornalista. Todavia, a questão que se coloca é a seguinte: estarão estes “jornalistas”, sem formação profissional, habilitados e preparados para o jornalismo digital?   

Um outro aspecto que pode ser levantado como um problema para o jornalista moçambicano na era digital, está relacionado com os currículos adoptados pelas academias de formação jornalística em Moçambique. Os currículos moçambicanos de formação em comunicação estão relativamente atrasados, tendo em conta a evolução que o mundo regista. Por exemplo, recentemente, participei de uma palestra organizada pela Escola de Jornalismo, por sinal a mais antiga do país na formação em comunicação, em que debateu-se a questão da própria era digital e a posição do jornalista moçambicano face a estas mudanças. Entretanto, por incrível que pareça, esta própria instituição de ensino, que debate profundamente o papel do jornalista na era digital, não tem a disposição uma sala de informática para os seus estudantes, o que é inconcebível.

Não obstante, três outros fenómenos podem ser apontados como problemas para a época que se avizinha, respectivamente: a censura, a centralização dos órgãos de informação e incapacidade de perfurar os distritos das várias províncias moçambicanas. Para estes três pontos, proponho uma análise um pouco mais exaustiva, partindo da própria história da imprensa moçambicana.

1.1As primeiras manifestações da Imprensa em Moçambique
i) Censura
Analisando a história da imprensa moçambicana constata-se que a censura foi sempre, durante os vários períodos, um problema característico da actividade jornalística em Moçambique. A história da imprensa moçambicana está extremamente ligada ao próprio percurso histórico económico, social e político. Moçambique, como bem sabemos, foi colónia portuguesa durante muito tempo. A política coerciva adoptada pelo governo português face as suas colónias atrasou excessivamente a implantação da imprensa em todas colónias que Portugal dominara. As várias formas brutais usadas para colonização, durante muito tempo, bloquearam quaisquer tentativas de criar jornais que pudessem disseminar informações quotidianas sem ser censuradas.

A primeira manifestação da imprensa em Moçambique, ainda no estado colonial, data de 13 de Maio de 1836, com o Boletim do governo da província de Moçambique. O primeiro jornal seguiu-se um ano depois, designava-se O progresso. Este teve apenas um ano devido ao teor polémica por ele apresentado. As suas obras jornalísticas fizeram com que o governo colonial português o censurasse, o que culminou com sua extinção.
   
Com o passar dos tempos, já nos finais do século XIX, manifestações jornalísticas começaram a ganhar espaço no território moçambicano. As dificuldades enfrentadas por estes jornais eram várias, segundo António Hohlfeldt (2010), em seu artigo: O pioneiro da imprensa em Moçambique; João  Albasini e seu irmão, Os desafios para estes jornais eram imensos: a dificuldade na impressão, a escassez de papel, a censura ostensiva, não só das autoridades portuguesas quanto de quaisquer intermediários burocratas que se sentissem atingidos pela publicação.
  
Tempos depois, novos jornais foram aparecendo. Os finais do XIX registam, em larga escala, o aparecimento de novos jornais. De acordo com o autor, a multiplicação dos jornais moçambicanos nas duas últimas décadas do século XIX teve como base o surgimento de uma urbanização em quase todo país que tornou mais evidente a necessidade de uma actividade jornalística na sociedade moçambicana.
  
Nesta época, um dos fenómenos que vai ser responsável por catapultar a actividade jornalística é o nascimento do um sentimento nacionalista da população local que, em parte, defende a identidade portuguesa, no entanto, não esquece seus valores autóctones.  

Este sentimento, segundo advoga o autor, é visível claramente nos nomes de alguns jornais que surgiram ao longo da época, caracterizados, em sua maioria, pela exaltação africana, tendo como similaridade a questão o termo “África” ou “africano”, por exemplo: o Africano, de Quelimane, criado a 1 de julho de 1877, Brado Africano de Lourenço Marques 1955

Quando em 1975, Moçambique alcançou sua independência a questao da censura continuou. Todas esferas que constituíam o Estado sofreram alterações. Ouve mudança em todos campos, político, social, económico etc.

No congresso de 1977, realizado pelo antigo partido único (Frelimo), decidiu-se que Moçambique trilharia a linhagem marxista-leninista. Uma das primeiras medidas tomadas pela Frelimo, foi controlar a imprensa, fenómeno que até os dias actuais, em parte, de diferente modo, é uma realidade.

Num contexto em que acabávamos de sair de uma guerra contra o colonialismo, na qual certa imprensa, sobretudo a mais importante da época (Notícias de Lourenço Marques e Notícias da Beira, Tempo, Diário de Moçambique, Voz Africana), era controlada por grandes capitalistas defensores dosa interesses portugueses,  o governo de Machel acreditava que essa era a melhor mediada para construção do Estado independente.

De acordo com Chichava (2010), em seu artigo Sérgio Uma Breve Análise Da Imprensa Moçambicana, com essa atitude acentua-se a percepção de que a imprensa deveria ser um instrumento da Frelimo, ou seja, um instrumento do partido, um importante elemento na luta contra inimigos do Estado.

A imprensa era um instrumento do governo na busca de certos objectivos, e a liberdade de expressão e de imprensa eram vistas como meras ilusões.

Passados anos, no contexto de transição para a democracia multipartidária, com a promulgação da constituição de 1990 e da Lei de Imprensa de 1991, estavam criadas, supostamente, condições básicas para a proliferação da imprensa autónoma. com isto, podemos afirmar que censura sempre fez parte do processo evolutivo da actividade jornalística  nacional.

ii) Centralização dos órgãos de informação e incapacidade de perfurar os distritos
Um outro aspecto que pode ser levantado como problema para esta nova forma de fazer jornalismo, que é o jornalismo digital, reside no facto de que há uma centralização dos órgãos informação moçambicanos na capital.

Segundo dados estatísticos, até 2009 existiam apenas existem três jornais diários, todos de circulação nacional: O Notícias, o Diário de Moçambique e O País (antigo semanário, transformado em diário em 2008). Os dois primeiros pertencem à Sociedade Notícias SARL, uma empresa organizada como sociedade anónima mas cujos principais accionistas são entidades estatais ou com participação maioritária do Estado moçambicano. O jornal O País é privado e pertence ao grupo SOICO, proprietário da estação de televisão STV. Com 30 mil exemplares, é o diário que na época tinha maior tiragem, ultrapassando de longe o Notícias e o Diário de Moçambique. Por sua vez, O Diário de Moçambique era o único quotidiano publicado fora da capital, mais propriamente na cidade da Beira.

Existiam também nove jornais semanários: Zambeze Magazine Independente, Canal de Moçambique, Savana, Domingo, Público, Escorpião, @Verdade e Desafio. De entre estes, o semanário Domingo, o mais antigo, e o jornal Desafio, dedicado ao desporto, pertencem, também, à Sociedade Notícias SARL, sendo os restantes estritamente privados, sem relação com empresas estatais ou com participação do Estado.

Ao grupo de jornais que fazem parte da história da imprensa escrita de Moçambique juntam-se os electrónicos; Mediafax (o primeiro diário a ser distribuído por fax), o Ponto Certo (Diário electrónico - Fax - fundado em 22 de Outubro de 2007) entre outros.

Dado curioso, quase todos jornais que foram citados aqui situam-se na capital moçambicana, esta centralização comprometa a eficiência e a cobertura da informação em outras províncias e, principalmente, distritos moçambicanas. São vários os distritos que a imprensa em Moçambique não abrange. 

Alguns dos jornais, caso do diário Notícias, chega as bancas da beira com um dia de atraso. Portanto, a questão que se pode colocar é a seguinte: se até ao nível dos jornais impressos temos problemas do género, o que será de nós na era da imprensa digital? Há condições para enfrentar esta nova etapa da história mundial em Moçambique? Estará, a comunidade jornalística e público no geral, ciente e preparada para a nova forma de fazer jornalismo?  



Bibliografia:


CHICHAVA, Sérgio Uma Breve Análise Da Imprensa Moçambicana: Desafios para Moçambique 2010, disponível em: http://www.iese.ac.mz/lib/publication/livros/des2010/IESE_Des2010_5.ImpMoc.pdf( consultada a 06 de 03 de 2014)


HOHLFELDT, António; Artigo Pioneiros da imprensa em Moçambique; João Albasini e seu irmão, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, disponível em: http://bjr.sbpjor.org.br/bjr/article/view/255/254( consultada a 06 de 03 de 2014)

LOPES, Rita. O poder da Media na Sociedade Contemporânea, Universidade da Beira Interior, p. 33-35 disponível em:  http://www.labcom.ubi.pt/files/agoranet/04/lopes-rita-media-e-poder.pdf ( consultada a 06 de 03 de 2014)

MARTINHO, Luís C. Os Cursos de Teoria da Comunicação à Luz do Jornalismo: obstáculos e impropriedades das posições tecnicista e intelectualista. Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Set. de 2005. P.24-26  

João dos Santos Albasini. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-03-05]. Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$joao-dos-santos-albasini>.



Opinião: AS MENTIRAS DO NOSSO TEMPO E O CAMINHO PARA O FUTURO

AS MENTIRAS DO NOSSO TEMPO E O CAMINHO PARA O FUTURO Créditos : AS por:Lino A. Guirrungo (Jan, 2019) Eu nasci pouco depois que...