segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Crónica: It’s all Fucked


It’s all Fucked 
                                                                                       Autor: Albert Massango
‘It’s all fucked up. Quando a tempestade bate na porta, o vento e chuva arrastam-nos e nos transformam em novos seres, bons ou maus’, estas palavras passavam-me pela mente quando acordei à madrugada de hoje, com perturbações mentais que me escravizavam e, em parte, me faziam duvidar da minha própria existência (penso logo existo, como disse Descarte, mas eu pensava duvidando da minha própria existência).   
       
Não conseguia pensar em mais outra coisa senão no passado, presente e futuro, três tempos com idades diferentes, um mais velho que o outro. Conhece-se o passado através da mente, aliás, o pretérito é um caminho que nos guia ao presente e o futuro, por seu turno, constitui um mistério se não uma incógnita complexa e indecifrável.
Ergui-me aos poucos, entretanto sem ideia de o que fazer. Daí que matutei e a primeira ideia que me surgiu foi dirigir-me ao livro que lia, O Ladrão que Estudava Espinosa, de Lawrence Block.

 Já estava com o livro nas mãos, lendo a página que me introduzia ao quarto capítulo, quando repentinamente constatei que não fazia sentido prosseguir com a leitura porque me faltava atenção, (quando dei por mim estava a repetir o mesmo parágrafo pela quarta vez).  
Descobres que a vida faz pouco sentido quando estás sozinho enclausurado em pensamentos que te escravizam e que te levam a pensar na própria existência – às vezes me dava vontade de parar de pensar no que realmente me tirava atenção e o sono mas, damn, eu era incapaz.

Atirei o livro ao chão, tendo, de imediato, ficado deitado de costas pensando em todo aquele cenário que na minha mente se projectava criando uma frustração, uma espécie de imagens e vozes que me perseguiam mesmo quando tentava me distrair.       
Porque não sabia se tinha de me levantar ou continuar a dormir, optei em ficar de cócoras no centro da cama, absorto em pensamentos indecifráveis. (até agora, sou incapaz de te dizer o que me teria passado pela mente, para além dos três tempos)
Notando que uma dor de cabeça e um sentimento de solidão me invadiam, pego no celular para falar com alguém, à procura de um antídoto, mas esta simplesmente não responde à chamada.

 ‘Estou simplesmente cansado. Estou farto do trabalho, da faculdade e dos abraços fervorosos’, passou esta frase pela cabeça, para significar que estou farto de ser parte destas falsas relações – que me enchem de abraços fervorosos mas, no fundo, vazios.
Talvez faça sentido ser um ser único. Daí distancio-me do celular, tento cobrir-me com os lençóis mas sinto um calor infernal, que me cria uma macabra vertigem. Fecho os olhos, vejo uma escuridão, volto a abri-los e o brilho da lâmpada causa-me uma outra vertigem.

‘O que faço nesta solidão dolorida?’- questiono-me, entretanto, a resposta não me vem. Talvez a solidão faça sentido, pois nascemos e morreremos sós. Aliás, não vou conseguir viver assim por muito tempo.                             


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Opinião/Música:Nina Simone:The "Colored Girl"

Nina Simone:The "Colored Girl"

“I’m the kind of colored girl who looks like everything white people despise or have been taught to despise.”
– Nina Simone

Por: Telcínia dos Santos 


Setenta anos. Idade perfeita para a morte de uma mulher que em vida viveu milhares de vidas. Nem a raça, nem a cor da pele, nem o berço (humilde), nem os escândalos e as desilusões amorosas e muito menos o câncer foram capazes de apagar o brilho de um dos mais memoráveis símbolos da música afro- americana.

Mais do que a sua própria existência, Nina Simone assumiu desde pequena a causa de “descolorir” o mundo. Diferente do pensamento padrão, Nina sabia que o mundo não era negro nem branco, mas apenas mundo, sem dissensões.


Como quem carrega as dores do mundo, Nina Simone ou “Colored Girl” abraçou uma luta social contra um racismo que, diversas vezes, durante o seu percurso, lhe tirou várias oportunidades.




Se há dores que movem, o racismo foi uma das que conseguiu mover por completo Nina Simone. Na verdade, foi esta dor que deu origem a Mississipi Goddamm, um clássico que assinala o início de uma luta contra a discriminação.

Rapidamente, a “Colored Girl” tornou-se num hino tocado em diversos protestos sociais sobre direitos humanos e civis na década 60.

“I think every day's gonna be my last
Lord have mercy on this land of mine
We all gonna get it in due time
I don't belong here
I don't belong there
I've even stopped believing in prayer
All I want is equality
for my sister my brother my people and me”[1]

Esta abordagem de Nina questiona a existência de Deus e revela a sua descrença provocada pela desigualdade social que prevalecia nos Estados Unidos. Na mesma linha surgiram dois outros clássicos como “Four Women,” and “To Be Young, Gifted, And Black.

Volátil, a cantora interpretou vários estilos, mas de maneira única. Encarnava o jazz e expressava as dores que em vida lhe foram muitas. Entre desamores, enganos e perdas o talento inquestionável nunca se perdeu.

Única, cantava com uma força libertadora. De sorriso difícil, talvez renegado pelas inúmeras portas que se fechavam ao seu talento pelo tom da sua pele, Nina Simone vem marcar diversos períodos da história. Afinal, tudo que ela queria era ser um reflexo da época em que viveu, e que o seu canto revolucionasse.

Esta mulher revolucionária se manifesta ao mais alto nível em “Aint Got No, I got life”, em que ela renega tudo inclusive Deus.

"Ain't got no love                            
Ain't got no air
Ain't got no God
Ain't got no faith
Ain't got no God

                                                                      I've got life
I've got my freedom
Ohhh
I've got life!"[2]


Recentemente, a música e o activismo de Nina Simone reemerge na cultura popular. Em 2016, a história da cantora foi retratada no documentário original da Netflix, indicado ao Oscar “What Happened, Miss Simone?”, dirigido por Liz Garbus.

Também foi lançado o filme “Nina”, realizado por Cynthia Mort, um trabalho que não foi muito bem recebido pela crítica e que explora a sua turbulenta história de vida.

Os “desvaneios” amorosos são típicos das divas e isso bem se retrata no seu livro auto-biográfico, intitulado “I Put a Spell on You: The Autobiography of Nina Simone”.

Em seu primeiro álbum, “Little Girl Blue”, de 1958, na música com o mesmo nome, ouve-se eco de uma “menina mulher”, infeliz que talvez sempre tenha sido. Suavidade e lírica que se casam, numa voz quase que angelical e que revela a carência de uma alma feminina que clama por amor.
“Why won't somebody send a tender blue boy
To cheer up little girl blue”

Apesar de alguns passos em falso e dos escândalos, ela não se “arrepende de nada”. É o que ela diz, em 1972, na música “My Way”, numa versão da celebre obra prima de Sinatra,  revelando-se uma mulher única e sem remorsos do seu passado. Como que pressentindo o seu fim, deixou claro ao mundo que viveu do seu jeito, sem ressentimentos.

Hoje, 14 anos após a sua morte, um antigo dilema parece ganhar asas no ocidente pela ideais de um “Cavaleiro Loiro” que tende a atear mais fogo aos dramas raciais desde muito vividos na maior potência mundial.

Numa altura em que o mundo aguarda a tomada de posse do recém-eleito Presidente norte-americano, Trump, os media estão a noticiar as dificuldades que o futuro morador da Casa- Branca está a enfrentar para abrilhantar a sua cerimónia, após tantas rejeições de cantores como Celine Dion, o músico Elton John, o cantor de country Garth Brooks e a estrela da ópera Andrea Bocelli.

A cantora britânica Rebecca Ferguson disse a Billboard que só poderá cantar na tomada de posse de Donald Trump caso lhe permitam interpretar “Strange Fruit”, música contra o racismo, famosa nos Estados Unidos e já interpretada por Nina Simone, em 1965.

“Strange Fruit” é uma das canções de protesto mais famosas dos Estados Unidos da América. Escrita pelo professor Abel Meeropol, da cidade de Nova Iorque, em 1937, as letras descrevem os linchamentos dos afro-americanos.

Billie Holliday foi a primeira artista a gravar a canção em 1939 e, mais tarde, Nina Simone usou a música durante o movimento dos direitos civis em 1965.

Tudo indica que a 12 de Fevereiro, na edição do Grammy Awards 2017, Nina Simone será reconhecida pelo prêmio Lifetime Achievement, um “prêmio por suas realizações ao longo da vida. Talvez, numa tentativa de corrigir os erros de um passado em que a cantora, em vida, não foi reconhecida nesses moldes.

A cantora afro-americana gravou mais de 40 álbuns ao longo de cinco décadas de carreira. Com trajetória marcada pelo ativismo negro, Nina tornou-se uma das vozes mais célebres da  música soul.
Além de Nina Simone, em 2017, também recebem o prêmio de carreira artística: The Velvet Underground, banda que revolucionou a música rock, na década de 1960, Sly Stone, líder da banda Sly and the Family Stone, a estrela do gospel Shirley Caesar e o ícone do piano Ahmad Jamal, além de Charley Pride, o ex-jogador de beisebol que foi o primeiro afro-americano a ter sucesso na música country.

Simone ficou marcada por incentivar uma luta física, uma revolução violenta, oposta a abordagem pacífica de Martin Luther King, na reivindicação dos direitos dos negros.

Deixando um legado que revolucionou e ainda move épocas, Eunice Kathleen Waymon, ou simplesmente Nina Simone, será sempre lembrada como um ícone da música e do activismo social contra o racismo. Mais do que melodias, Nina deixou ao mundo lições de humanidade musicadas, que inspiram, até hoje, gerações.

TS//EAC



[1] Extraídos do álbum “Nina Simone in Concert”- 1964
[2] Extraído do álbum “Nuff Said”- 1968

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Crónica:O Novo Ano Velho


O Novo Ano Velho
                                                        
                                                          por: Lino A. Guirrungo

Uma das maiores mentiras nas sociedades modernas é pensar que estamos protegidos pelas paredes das nossas casas. O mal é como o ar, está em todo lado. É horrível pensar assim no primeiro mês de um novo ano, já que recentemente renovamos as esperanças no réveillon.

Acabado de chegar à casa, ligo a televisão, depois de um dia igual aos outros: sair pelas ruas à procura de uma oportunidade de trabalho e nada. Fico feliz por não ter encontrado ninguém em casa. Moro sozinho, aliás, com o meu pai (há dois anos que ele se divorciou, sendo eu o único filho maluco que decidiu ficar) e deprimo-me sempre que vejo o seu rosto taciturno e cansado. Pior que isso é quando ele faz aquela pergunta super constrangedora de se responder: “Filho, então, já conseguiste um emprego?” Não culpo o velho, ele é uma boa pessoa, a vida é que é muito complicada.

Não busco nada de especial na tela, ao que deixo ficar o canal que achei em primeiro. Está saindo um programa de debate, desses com um apresentador e três comentaristas. O debate é sobre o que se pode esperar de 2017 para Moçambique e para o mundo. Passados quinze minutos, farto-me de ouvir aqueles tipos e desligo a TV. Não que o tema seja irrelevante, mas simplesmente estou sem saco para ouvir a repetição da ladainha dos nossos comentaristas, tipicamente parciais e superficiais. Observo a sala quase mórbida com o silêncio e, de seguida, vou ao meu quarto pensativo.

No mundo, os cipriotas estão tentando se reunificar; um ditador em Gâmbia, que havia aceitado a derrota nas eleições em 2016, não quer abandonar o poder; um tipo porreiro, que fala português, vai liderar a ONU; os norte-coreanos dizem que já podem testar o “brinquedo” que há muito desejavam: um míssil intercontinental capaz de atingir a costa norte-americana; a Venezuela está de rastos; os brasileiros já esqueceram o impeachment a Dilma enquanto os sul-coreanos ainda festejam a imitação da moda brasileira. Isso na tentativa de ignorar os assuntos mais badalados: ataques terroristas na Europa; a desgraça da guerra na Síria; a saída do primeiro presidente afro-americano da presidência dos EUA e a ascensão de um controverso milionário à mesma presidência.

Aqui em Moçambique está tudo nos eixos ou nos extremos. Depois de muitas rondas de negociações de paz, que só o meu pai sabe dizer ao certo o número (ele vê telejornal como um viciado em drogas, nem o critico porque o velho nada tem para se divertir), Dhlakama pôs temporariamente ordem no país. Foi só ele querer parar com tudo que os seus homens lhe obedeceram. Há uma trégua provisória na nossa guerra ou, como diz a imprensa nacional, na “tensão político-militar”. O segundo termo é falso porque, vendo pessoas mortas depois que esta besteira de guerra recomeçou, é preciso ser ou ignorante ou insensível para chamar a tudo isso de “tensão”.

Depois de muito barulho com a descoberta, em abril de 2016, das altas dívidas do Estado escondidas, Moçambique ainda aguarda o desfecho do caso neste novo ano. Eu já estou apostando no desfecho. O bolo será mais restrições, mais desemprego, mais comentaristas na TV a analisarem um eventual desaire económico do país e menos projectos sociais do Governo. A cereja no topo do bolo: ninguém será preso pela falcatrua das dívidas escondidas (ou, pelo menos, quem interessa mesmo ser preso).

Da última vez que vi o Presidente da República (PR), Filipe Nyusi, estava a discursar na Assembleia. Ao contrário do meu pai, poucas vezes vejo televisão daí que raramente vejo o PR. No tal discurso, o Presidente afirmava que “o Estado da Nação mantém-se firme”. Contrariamente a muitos, eu não achei a frase má, mas considerei a expressão como a maior piada de 2016. Nem o Presidente norte-americano, Barack Obama, fez-me rir tanto na Noite dos Correspondentes de 2016. Sempre disseram-me que o nosso Presidente era “boa pinta” e com um bom senso de humor, agora não tenho dúvidas.

Para afirmar aquilo, com aquela convicção, era preciso muita coragem e uma dose de descaramento que só os políticos têm. A verdade é que não entendo como eles falam por nós se não sabem sequer se comemos ou não antes de dormir. A propósito, agora entendo por que o meu velho não está em casa. Foi jantar no lar da minha irmã, por aqui não haverá jantar hoje. Nada de especial.

Enquanto isso, os crimes “banais” continuam, como o roubo na casa do meu vizinho justamente no Dia da Família (Natal). Na TV, apresentadores e telespetadores julgam pessoas antes mesmo destas aparecem nos tribunais. “Há que balançar o país”, é o argumento de um desses programas televisivos. É triste e pueril, mas a rotina é bastante reconfortante, todo mundo gosta de julgar e falar mal dos outros.

Tenho de admitir que há outras balelas mais grotescas nos canais de TV de sinal aberto em Moçambique. A minha outra irmã (como também boa parte das alunas do Secundário) reprovou, mesmo tendo obedecido, à norma da saia larga que o anterior Ministro da Educação e Desenvolvimento Humano, Jorge Ferrão, impôs. Ainda bem que foi demitido, não por eu achar que a sua substituição faça grande diferença, mas porque penso que é ruim alguém atribuir à medida de uma saia o mau desempenho escolar. O ex-ministro é um homem bem-intencionado e entendi as suas motivações, mas acho que ele acreditou em demasia que os fins justificam os meios. Há quem culpa o tamanho das saias pelos assédios e violações sexuais, enfim, são mais uns a atribuir a culpa às vítimas e não aos agressores.

Não me espantaria se agora culpassem o pacato povo pelas dívidas escondidas e não aos governantes. Nessa lógica de culpabilização da vítima, diriam que o povo não foi suficientemente um bom escrutinador do Governo, daí as trapaças e falcatruas. Risível como é óbvio.

Sinceramente, não espero muito deste ano. Provavelmente vai ser melhor para alguns países e pior para outros. Gosto da ideia de um falante de português a liderar a ONU, mas a paz da humanidade nunca foi prioridade para os homens no poder, então, continuará a haver guerras pelo mundo fora. Cá em casa, o país continuará bem nos limiares do Índice do Desenvolvimento Humano e a guerra vai acabar quando Dhlakama e os vermelhos quiserem.

Enquanto isso, tenho de arranjar um emprego. Esse papo dos políticos gananciosos e pessoas sem noção do “Moçambique real” falarem de os jovens terem de ir aos distritos (como se os jovens não quisessem) é ridículo. Há pouca atratividade em ir ao interior dos distritos, caso contrário íamos em massa. Que perguntem ao meu melhor amigo, que é professor do aparelho do Estado, como ele vive no interior da província de Nampula? Resumindo, sem água potável por perto, sem eletricidade, bens de consumo absurdamente inflacionados e, o pior, pouco acesso à informação. Diante dessas evidências, não entendo como ainda há pessoas que ficam atónitas com a crescente periurbanização do país. Autoemprego? Surpreendo-me como eu e o meu pai vivemos sem emprego formal (para não falar da maioria dos moçambicanos). Óbvio que nos arranjamos. Talvez eu venha a ser um Bill Gates com esses bicos, já houve quem enriqueceu com o negócio dos patos ou dos doces nestas terras do Índico. Bom, pelo menos é o que o povo diz sobre esses exemplos de “sucesso” empresarial de moçambicanos.


Os povos geralmente são fortes e corajosos. Sabem bem o que esperar de um novo ano: enfrentar os problemas do ano anterior e velho. Os moçambicanos comuns acreditam numa máxima da personagem, que é de um livro que gosto muito, chamada Atticus Finch. Finch diz que “coragem é sabermos que estamos vencidos à partida, mas recomeçar na mesma e avançar incondicionalmente até ao fim. Raramente se ganha, mas às vezes conseguimos”.

Espero mesmo que Moçambique e nós, o seu povo, consigamos singrar. Os políticos e os comentaristas de TV podem se ferrar (menos a pouquíssima minoria séria desse grupo é claro).

Estou cansado e meio com fome. Deve ser por isso que pensei nessas bobagens. Vou dormir, amanhã é um novo dia.


(Janeiro, 2017)

LAG//EAC

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Opinião:Quando A Patologia É A Identidade

Quando A Patologia É A Identidade

                                                                                            por: Estêvão Azarias Chavisso

Talvez o século em que vivemos seja um dos mais distintos no que respeita ao modelo das nossas relações humanas. Talvez a chamada época pós-moderna tenha sido o momento áureo no âmbito do grande projeto da “aldeia global” e, consequentemente, a diversidade, alicerçada pela aparente democratização da esfera pública a partir das tecnologias, tenha sido afirmada como uma das mais sublimes características da nossa “jovem” espécie.


Ora, a consequência lógica da diversidade, surpreendentemente, é a subjetivação. Para que pensemos num “Todo” é necessário que haja, primeiro, um “Particular”. Este resultado lógico leva-nos a questão: O que seria a subjetivação?

Por subjetivação, esclareço, entendo toda a afirmação das características peculiares do “Eu” com o intuito de distingui-lo no meio do “Todo”.

Neste contexto, a subjetivação seria a nossa tendência natural de, mesmo afirmando as “vitórias” da diversidade no mundo atual, partirmos de um pressuposto individual e, de certo modo, etnocêntrico, que tem no “Eu” o ponto de referência para a afirmação do Outro.

Em outros termos, a subjetivação seria a imposição daquilo que nós chamamos de “nossa Identidade”, como forma de particularizarmos a nossa existência num universo tão plural, tomando-nos a nós mesmos como eixo de análise.

O problema começa exatamente neste ponto, na medida em que, para a nossa infelicidade, a Identidade (nacional, cultural ou religiosa) é um elemento exterior ao sujeito.
Em outros termos, ela é apenas uma mera construção social e que pode variar em função da nossa disposição geográfica.

A identidade não é um elemento adquirido biologicamente. Pelo contrário, ela é uma categoria social em contínua construção e que, em função do dinamismo que nos é próprio, exige atualizações constantes.

É o que Gil (2009)* chamou de “patologia de que o Eu é o vírus despótico”, considerando a identidade como o mais perigoso mal das nossas sociedades.

Talvez o mal não seja necessariamente a identidade. Talvez o erro resida no fato de a termos tornado o elemento basilar para afirmação da Humanidade do Outro.

Trata-se de uma doença que nos faz esquecer de que, antes de moçambicanos, brasileiros, angolanos, americanos ou africanos, somos seres humanos e que, mesmo não possuindo traços comuns no que respeita à origem étnica, temos todos o direito à vida.


O nosso pecado foi superiorizar as identidades omnipresentes, fechando nossos egos dentro de fronteiras físicas e mentais, na ambição de atribui-las uma autossuficiência inexistente.
Esquecemo-nos, no entanto, que as fronteiras e a cultura são elementos dinâmicos e a única verdade é que nós (seres humanos) somos apenas parte da natureza. Ou seja, somos nada mais do que uma ínfima espécie sob risco de extinção no meio de um universo gigantesco.

As atrocidades que marcam a pós-modernidade, ameaçando a nossa espécie, encontram seu fundamento nesta patologia, que impossibilita as pessoas de realmente ver e aceitar o Outro e dissemina uma visão etnocêntrica com consequências alarmantes.

Assumir, por exemplo, que a pertença a um determinado território é a condição para o gozo dos direitos básicos é nada mais do que reduzir o Homem à sua origem étnica, eliminando a mais sublime das dimensões do ser humano; a possibilidade de, independente da sua origem, etnia ou cultura, ser o que a sua consciência determina. A patologia da identidade é um atentado à liberdade do Outro.

EAC//EAC

Referência Bibliográfica:

* Gil, José, Em Busca da Identidade; O Desnorte, Relegio de água, Lisboa, 2009

NB: Escrito à luz do novo acordo ortográfico 
Publicado em: http://www.fasdapsicanalise.com.br/quando-patologia-e-identidade/

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

REPORTAGEM:Sobreviver em Moçambique

Sobreviver em Moçambique


por: Estêvão Azarias Chavisso, para o Jornal  Plataforma Macau

As camadas mais pobres têm sido as mais atingidas pela sucessão de crises em Moçambique e, face a tantas incertezas, o desafio é encontrar estratégias para sobreviver, mesmo “sem se saber se vai haver comida amanhã”. 
Há dez anos que o dia começa cedo para João Casa, 64 anos, um respeitado sapateiro em Maputo. O sorriso simples e bom humor do velho João, como é conhecido, não escondem o seu desespero face à subida do custo de vida, principalmente quando pensa nos seus cinco filhos que vivem no distrito da Manhiça.
“Estamos a passar mal”, lamenta o sapateiro, sobretudo para um deficiente, como é o caso, enquanto atende um dos poucos clientes na sua pequena barraca improvisada a poucos metros de uma vala de drenagem com água parada. 
A distância de Manhiça até à capital moçambicana é de cerca de 80 quilómetros, um percurso que João Casa faz diariamente com muito esforço, na medida em que começa a ser “apertado” arranjar os 60 meticais (0,81 dólares) para cada viagem.
“Ninguém quer se dar o trabalho de levar um deficiente com uma cadeira de rodas”, declara o sapateiro, que, como todos, é permanentemente bombardeado por notícias más e teme pelo futuro da nação que viu nascer há 41 anos.
Dos Números à Machamba
Moçambique atravessa uma conjuntura marcada por um forte agravamento do custo de vida, uma crise política e militar que opõe o Governo e a Renamo, maior partido de oposição, a consequências dos desastres naturais, e ainda a perda de credibilidade no exterior após a descoberta de avultadas dívidas escondidas das contas públicas.
O efeito combinado destas crises resultou na desaceleração da economia para uma estimativa abaixo dos 4% em 2016, num país habituado a crescer acima dos 7% nas últimas duas décadas, e numa inflação galopante, que poderá chegar aos 30% no final do ano. 
A descoberta, em abril, de 1,4 mil milhões de dólares de dívidas escondidas, contraídas a favor de empresas estatais entre 2013 e 2014 com garantias do Estado, fez com que o grupo de doadores do Orçamento Estado suspendesse os financiamentos, aumentando as incertezas num país que já foi apontado como um modelo.
Pelos mesmos motivos, o Fundo Monetário Internacional (FMI), também parou um programa de empréstimo e exigiu uma auditoria internacional independente às dívidas escondidas, já em curso, além de pesadas medidas de austeridade fiscais e monetárias.
O Governo assumiu em outubro a incapacidade de pagar as próximas prestações das dívidas escondidas e pediu aos credores uma reestruturação dos seus encargos, sem a qual o FMI não poderá reatar um novo programa de apoio, já que as suas próprias regras impedem o financiamento de países com dívida em esforço ou problemática, como é o caso.
A dívida pública de Moçambique disparou para os 130% do PIB, para o desespero de quem, como o velho João, pouco sabe de economia, mas sente o impacto de “todos essas manobras”. 
Com ajuda da esposa, o sapateiro virou agricultor, apesar do desafio que é pegar numa enxada sentado numa cadeira de rodas. num terreno de trinta metros quadrados nos arredores da sua residência na Manhiça. A produção que sai da sua machamba (horta) é singela, mas alivia os gastos com produtos de primeira necessidade, alguns dos quais com aumentos de 30% ou mesmo muito mais nos últimos meses.
No entanto, a alternativa de João Casa foi fortemente abalada pela seca que fustigou Moçambique em 2016, destruindo metade dos seus canteiros e agravando a lamentável situação que já ameaçava a sua família e de pelo menos 1,4 milhões de pessoas em insegurança alimentar. “Temos apostado agora nas culturas mais fáceis de plantar. Mas não há nada”, observa o velho João.
O Professor que já não Almoça

Embora o Governo tenha garantido que os setores sociais estariam isentos de cortes, Luís Chilaule, professor na Escola Primária das FPLM – Forças Populares de Moçambique, diz que a crise começa a afetar a educação e o pagamento de horas extra.
“Eu próprio cortei o almoço”, lastima o professor, que abriu uma pequena banca de produtos alimentares na sua casa, e “não dá quase nada” mas cobre o custo de transporte escolar dos seus dois filhos.
Luís Chilaule diz que as dificuldades das famílias começa também ser visível na sala de aulas e as crianças pedem, por vezes, ajuda ao “pobre professor”, que sente a fraca assimilação da matéria dada.
As intenções de investimento caíram 48% no primeiro semestre de 2016 comparativamente ao mesmo período do ano passado, numa crise vertiginosa de múltiplas causas, que vêm de fora e de dentro, associando a queda dos preços das matérias-primas de exportação à forte desvalorização do metical face ao dólar e a problemas estruturais de Moçambique com um pobre ambiente de negócios e ainda um conflito militar no centro do país.
“Escutamos sempre informações de que a guerra está a piorar a situação e a afastar empresários”, comenta Luís Chilaule.
Em Maputo, a negociações entre as partes decorrem na presença de mediadores internacionais, mas ainda não houve consenso em nenhum ponto da agenda.
“Nós queremos paz. Só assim podemos realmente lutar contra a fome”, insiste o professor.
A população luta ainda contra condições de crédito proibitivas na banca comercial, cada vez mais penalizada pelo banco central, que aumentou em setembro as taxas de juro de referência em seis pontos percentuais, para 23,25% nos créditos e 15,5% nos depósitos, ainda assim abaixo da inflação.
O setor financeiro entrou em alarme com a falência determinada pelo Banco de Moçambique do Nosso Banco, detido pelo Instituto Nacional de Segurança Social, e que levou a uma corrida aos balcões dos depositantes que recearam ficar sem as suas pequenas poupanças noutras entidades.
Sobretudo, depois de saberem que o Fundo de Garantia de Depósitos apenas reembolsava clientes particulares num máximo de vinte mil meticais (270 dólares), deixando de fora as empresas, que perderam tudo.
Foi a segunda intervenção em dois meses do banco central, que antes tinha assumido a gestão do Moza, participado pelo português Novo Banco, devido à instabilidade dos seus indicadores prudenciais e agora está a ser preparado para venda.
O Banco de Moçambique já veio afastar qualquer razão para pânico e declarou que o restante setor financeiro permanece sólido, garantindo que os rácios de solvabilidade do conjunto de bancos mantém uma média de 14%, muito acima dos 8% mínimos exigidos.
Mas como consequência, a agitação na banca contribuiu para que Luís Chilaule desistisse de pedir um empréstimo para investir no seu negócio, preferindo esperar por “tempos melhores”.
Enquanto não chegam, tanto para o velho João como para o professor Chilaule, a esperança por dias melhores permanece, uma virtude típica de um povo que insiste em fazer o seu próprio manual de instruções para sobreviver.

FIM
Jornal Plataforma Macau
Publicado em http://www.plataformamacau.com/mocambique/sobreviver-em-mocambique , a 02 de dezembro de 2016

domingo, 11 de dezembro de 2016

Literatura: Água. Uma Novela Rural, Entre a Escassez e Excesso


Água. Uma Novela Rural, Entre a Escassez e Excesso


Autor: Alberto Dalela Massango



Com as suas personagens redondas, dotadas de comportamentos inusitados e capazes de escravizar a vista de quem as lê, João Paulo Borges Coelho, escritor moçambicano que cruzou nomes históricos em Moçambique do século XX, ao longo da I Guerra Mundial, volta a brindar-nos com um acontecimento real em forma de ficção.
Neste novo romance, intitulado Água. Uma Novela Rural, através de um narrador heterodiegético, o autor do Olho de Hertzog mostra-nos que numa terra sedenta por água, este precioso, pode constituir motivo de guerras, descontentamentos, cepticismo, bem como ateísmo.

Logo na primeira página da diegese, o narrador, instituído por Borges Coelho, chama atenção sobre a necessidade de nunca se depositar confiança nesse líquido (a água), na medida em que ele depende da natureza e, como já se sabe, a natureza depende de si mesma - o homem não exerce nenhuma influência sobre fenómenos naturais e se a exerce, tal influência é insignificante.

As complexas personagens desta narrativa, que levam sempre o leitor à uma reflexão profunda, ao ponto de se questionar “o que fará a personagem X no capítulo seguinte; como a personagem Z vai-se comportar perante àquela transformação”, criam, paulatinamente, de capítulo em capítulo, se não for de parágrafo em parágrafo, um debate entre o leitor e o discurso do narrador.

Tal como afirma Borges, através da sua entidade fictícia, sobre a necessidade de nunca se confiar na água pelo facto de ela dividir opiniões, observa-se o diálogo conflituoso entre o homem campesino e o urbano, ambos dotados de conhecimentos distintos. Neste caso, o primeiro, com a sua tradição oral, é dotado de conhecimentos mitológicos passados de geração em geração, ao passo que o urbano, com recurso à escrita e tecnologias de informação e comunicação, acredita na solução científica (computadores, gráficos de medição de temperatura e diversas máquinas). 

O conflito entre o campo e a cidade constitui um elemento primordial que se pode observar na Água. Uma Novela Rural, pois os discursos das personagens, bem como os do narrador principal demonstram, nitidamente, a divergência ideológica entre ambos espaços.

É incrível que na narrativa em causa, já quase no fim, a estiagem, que assolava os habitantes da aldeia campesina, é substituída por terríveis cheias, ou seja, a escassez da chuva, que dizimara milhares de cabeças de gado e transformara rios sedentos e terras inférteis, fora substituída por um excesso de chuvas que, em contra partida, engolira os casebres e miríade de pertences das populações, bem como ceifara vidas humanas.

João Paulo Borges Coelho, com este novo romance, quer significar que a escassez e o excesso não prestam, ou seja, nunca trouxeram vantagens – daí a necessidade de sempre se optar pelo meio-termo, nem pouco nem muito apenas o normal.

Tal como o diamante, centro das atenções, no Olho de Hertzog, que não chega a ser achado nem descoberto o seu paradeiro, acontece com a protagonista deste romance, Maara, que após a enxurrada o narrador não chega a revelar o seu paradeiro, - não esclarece se ela foi salva ou engolida pelas cheias - deixando essa tarefa para o leitor.

João Paulo Borges Coelho, na Água. Uma Novela Rural, traz-nos um fenómeno particular nos nomes das personagens (Maara, Laago, Heera, Waaser, Floor, Praado, entre outros). Tal fenómeno é, linguisticamente, denominado Alongamento Vocálico, frequente nas línguas bantu e na língua inglesa.
ADM//EAC              

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Crónica: Estou-me nas Tintas


Estou-me nas Tintas
Autor: Albert Massango

‘Estou-me nas tintas!’, ecoava uma voz gutural nas profundezas da cabeça, quando a mente se encontrava numa longa introspecção, minutos após ter sabido que, afinal de contas, ela me abandonara por eu ser, financeiramente, um fracasso e um Zé vivalma, cheio de utopias.
‘O problema das utopias é que nunca se tornam reais, são sonhos que meramente vagueiam em espaços mortos, onde ninguém nem nada habita’, dizia ela, quando, por vezes, entravámos em discussões baratas. ‘Estou-me nas tintas!’, retorquia aquela voz gutural que, em certas ocasiões, se manifestava de forma bilabial.
Eu e ela conhecemo-nos num daqueles invernos de Agosto (eu acabava de ler um texto intitulado Fim do Amor Romântico), nas ruas da Cidade de Maputo. Na tal época, eu andava taciturno, solitário e nervoso, não sei quais eram os motivos para tal melancolia, apenas tenho ciência que me sentia um Brás Cubas à procura dum Quincas Borda, com aquela filosofia inspiradora, o Humanitismo.
‘Estou-me nas tintas’ gritava a voz, quando a vi passando a mão pelos seus cabelos lisos (abri os olhos, prestei mais atenção, dobrei o pescoço de forma desajeitada), sentada quase perto de mim, em seguida, saudei-a. Ela respondeu, com agrado e gentileza, daí constatei que me queria (podia até estar enganado ao pensar assim, mas, felizmente, acertei, pois ela me queria).
Sem mais de longas, trocámos contactos - passadas algumas semanas, combinámos um encontro, ela veio à minha casa – ficámos, por uma hora, a conversar, olhámo-nos. Em seguida, ficámos num silêncio profundo, ela ofegando, lancei-a um beijo e, logo, garrou-me com robustez.
Paulatinamente, ela abriu o zipe das minhas calças e eu os botões da saia dela - como se estivesse a competir com alguém, ela tirou a blusa que a cobria, baixou a sutiã – meti a mão, senti uma certa humidade inundando os meus dedos. Em poucos minutos, já estávamos no auge do acto (prefiro que detalhes a tua maneira, pois todos sabemos como isto termina).
Repetimos o mesmo acto por três semanas seguidas, zipes para cá e botões acolá. Nem sei como, passadas cinco semanas, ela me chamava de amor e, porque eu não me podia pronunciar da mesma forma, aquela voz gutural ecoava lá no âmago ‘estou-me nas tintas’.
É incrível a forma com que ela se apegou a mim em tão pouco tempo (talvez porque eu a endeusava e abria bem os botões da saia dela).
 Não obstante o facto de ela ter começado a condicionar os nossos encontros pelos passeios pomposos, acredito que me amava mas não mais que o valor monetário, que o dinheiro, que o capital, ou seja, não me amava mais que este senhor de diversos nomes.               
Em parte, é injusto que ela me tivesse amor, pois eu nem tampouco a amava, entretanto, a respeitava muito (Mas cá, entre nós, deixe-me dizer-te que nunca demonstrei tal desamor apesar de nunca lhe chamar de amor).         
 Eu não tenho dinheiro e não a amo, mas juro que com o tempo a amaria, até já sentia um pingo de amor comparativamente ao começo da nossa relação, que pouco durara. Por seu turno, ela me amava mas não mais que o cifrão ou, por outra, ela queria o dinheiro e eu não o tinha e, mesmo se o tivesse, não a devia para ser cobrado.
Tendo o nosso relacionamento cessado, definitivamente, apaguei o número dela, primeiro, do meu celular e, depois, da mente e, em seguida, veio aquela voz, desta vez, gritando: ‘ESTOU-ME NAS TINTAS’.    
É difícil contar o que veio depois, após ter-me distanciado da tipa mas já que comecei com a diegese, vou até ao fim. Bem, veio a frustração, confesso que me estava já a apegar a ela, talvez já a amava mas não sabia.
Tornei-me, novamente, num Brás Cubas. Desta vez, mergulhando em leituras melancólicas, filmes e músicas introspectivas (ficava no quarto todo dia, só saía para comer e beber e, às vezes, banhar).    
Não me apetecia mais sair de casa, a alcova era o meu subterfúgio. Aliás, mandei tudo à merda, a faculdade, o trabalho e os passeios entre amigos – daí surgiram as utopias.
Com as utopias, acreditei que, um dia, viveria numa sociedade igualitária (talvez por influências do Manifesto do Partido Comunista), com instituições públicas ao serviço das massas, entretanto, tudo acabou-se quando assisti ao Winston ser escravizado pelo Big Brother – logo, veio-me aquela voz gutural, desta vez bilabial, ‘estou-me nas tintas!’                    

 AM//AM

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