domingo, 30 de julho de 2017

Literatura: O Retrato duma Sociedade Corrompida no “O Cairo Novo”, de Naguib Mahfouz

Literatura: O Retrato duma Sociedade Corrompida no “O Cairo Novo”, de Naguib Mahfouz

Assistimos, século passado, à ascensão de diversas correntes de pensamento, para com destaque o niilismo, a psicanálise e o existencialismo. No entanto, esta última, no repertório da literatura africana, faz-se manifestar intensamente na narrativa de Naguib Mahfouz, até então o único autor de língua árabe galardoado com o Prémio Nobel da Literatura.


A narrativa de Mahfouz, autor egípcio nascido em 1911, provavelmente tenha obtido expressão a partir de Sartre e Camus, ambos filósofos existencialistas, que, através das suas personagens e discursos na ficção literária, também obtiveram o mesmo galardão, o maior que um escritor pode receber.

O existencialismo de Mahfouz, entretanto, está inteiramente virado para questões africanas, em particular, as do Egipto dos meados do século passado, caracterizado por enormes desigualdades sociais e económicas – com uma função pública corrompida e altos índices de desemprego, bem como com a ascensão do governo totalitarista de Gamal Nasser.

Algumas dessas desigualdades, vividas no Egipto dessa época, são descritas na obra O Cairo Novo, publicada em 1945, que, em português, chegou às livrarias através da Civilização Editora.  

Trata-se de uma obra “agressiva” sob o ponto de vista religioso, pois o autor questiona a ausência de “Deus” na vida daqueles (muçulmanos) que nele crêem, mesmo de forma dogmática. Ora, a abordagem de Mahfouz sobre religião, possibilitou o banimento de alguns dos seus títulos, como por exemplo, “Filhos de Gabalawi”, em países árabes, chamaram-no infiel pelos crentes e, pelos teóricos, niilista e existencialista.  
                      
Com recurso a uma linguagem simplista e de breve compreensão, que Roland Barthes chamou de “escrita de grau zero”, na obra O Cairo Novo, Mahfouz coloca em debate diversas temáticas mas, essencialmente, questões científicas e religiosas, catalisadas por uma abordagem sociopolítica.  

Logo no dealbar da narrativa, especificamente nas primeiras páginas, através das personagens instituídas por este escritor egípcio, somos introduzidos à antiga reflexão sobre ciência e religião. Temos, por exemplo, a personagem Ali Taha – um ateu que se prende ao socialismo de Marx questionando a religiosidade de Ahmed Bider, e Mahgoub Dyim.

“ […] Lembrem-se de que nos encontramos na universidade, um local onde não é consentido que se faça referência a Allah ou à paixão […] a universidade é inimiga de Allah. E quanta alegria sentia ao ver os maiores filósofos – Platão, Descarte, Pascal e Bergson”.

No trecho a cima, manifesta-se a questão religiosa versus ciência (espaço académico), em que Ali Taha questiona o apego excessivo dos seus colegas à religião.

Ainda na esteira da religião, quando nos são apresentadas as desigualdades sociais entre os egípcios, numa tonalidade sarcástica, o autor mostra-nos que a maior parte da sociedade crente é desfavorecida e problemática, e, por seu turno, a minoria (que não crê ou menos crê) é financeiramente estável e menos deprimida.

Provavelmente, o autor queira colocar em causa a insignificância que nos leva a crer numa força divina que não nos traz benefícios práticos senão suscitar questões metafísicas e indecifráveis. Na verdade, esta ideia sustenta o niilismo do mestre da língua árabe.

As acções nucleares da narrativa dão-se numa instituição de ensino (a universidade). Nessa instituição, faz-se presente, de forma constante, a temática relativa à academia e religião – chamemo-los códigos ideológicos da obra - não obstante a problematização das relações familiares.

As questões familiares e sociopolíticas observam-se no percurso de vida do protagonista Mahgoub, um dedicado muçulmano que tem a vida mergulhada no absurdo existencial e com capacidades limitadas para responder à uma necessidade biológica, a nutrição.

“Só existe uma única causa: a do islão em geral e a do arabismo em particular. Engraxou os sapatos por uma piastra, preço duma refeição completa. Contudo, não conseguia esconder o seu ar doentio, a sua tez macilenta e o seu corpo emaciado”.

Para além da luta pela nutrição, conforme o parágrafo acima, o nosso protagonista passa por momentos absurdos que o fazem “abandonar” os princípios religiosos e familiares pela estabilidade financeira.

Aqui, temos a grande transformação na diegese, dado que aquele protagonista devoto ao islamismo e arabismo se deixa corromper pelo sistema político, na expectativa de ver a sua vida melhorada financeiramente.    

Nesta fase da narrativa, ficamos com a ideia nítida de que o autor pretendia retratar a vida de uma personagem redonda, dotada de diferentes comportamentos – que se dividem entre o bem e o mal. E, em todos ângulos, tal pretensão foi bem conseguida, tornando Mahfouz, segundo a crítica da The New York Times, o Balzac do Egipto e provavelmente de África, ao lado de monstros como Wole Soyinka, Nadine Gordimer e J. M. Coetzee.

Em suma, O Cairo Novo é uma espécie de retrato do absurdo vivido por um jovem que perspectivava um futuro melhor sem esperar que o mesmo fosse submetido a corrupção, suscitando a seguinte questão: o que se pode esperar do futuro?

Aliás, importa realçar que Mahfouz, nesta obra, nos apresenta um protagonista niilista disfarçado de religioso.

                                                                                                 Autor: Alberto Massango


segunda-feira, 17 de julho de 2017

Opinão:Aqui Se Faz e Não Se Paga

Aqui Se Faz e Não Se Paga                       


       por:Lino A. Guirrungo
Sempre que amanhece olho a parede apática do meu quarto e vejo escancarada a inscrição: “o tempo não recompensa homens impacientes”. É uma daquelas frases de efeito baratas, muito fáceis de encontrar em qualquer diário da esquina. Nessa altura do campeonato, já não me apego a grandes filosofias.
Cumpro com a minha rotina desde que engrenei no selvático mundo do pós-universidade: visitar horas a fio sites de emprego e, quando não encontro as vagas desejadas (como acontece na maioria dos dias), entretenho-me nas redes sociais. Ao contrário do que achava um certo pensador, actualmente o tempo é o maior luxo que tenho.
Hoje o grande assunto nas redes sociais são os novos carros importados para os deputados e o relatório que investiga as dívidas do anterior governo. Críticas chovem de todo lado: abuso de autoridade, alguém devia ser preso, a PGR devia fazer o seu trabalho sem interferências políticas, os deputados são uns sem vergonha. As críticas não se fazem calar.
É óbvio demais que a nossa “democracia” ainda é muito frágil. A democracia acarreta transferência e prestação de contas do lado dos governantes e um alto sentido de exigência por parte dos cidadãos e da tão propalada “sociedade civil”.
Quando o escândalo das dívidas nasceu há já um ano, lembro-me de ter dito a um colega de faculdade que se nossos políticos fossem sérios iam de demitir. Sabia que isso não ia acontecer. Nossos políticos não são os únicos cínicos no mundo, basta olhar os políticos do Brasil ou do nosso vizinho Zimbabwe na actualidade. Com evidente entusiasmo, ele replicou que nas próximas eleições isso não passaria impune ao nosso povo. “O povo desta vez vai se vingar nas eleições”, afiançou ele. O seu optimismo parecia transcrever a evidente indignação colectiva. 
No entanto, a indignação não leva necessariamente à acção. Já dizia Montesquieu que “o povo age, sempre, ou demais ou de menos; às vezes, com mil braços derruba tudo; às vezes, com cem mil pés ele não vai senão como os insectos”.
Infelizmente a nossa democracia se resume em eleições, cujo vencedor é sempre conhecido de antemão. As campanhas eleitorais, sem muita profundidade de debate, não passam de um enorme protocolar desperdício de tempo. É inaceitável que continuemos atrelados à visão eleitoralista da democracia. Devemos melhorar o debate quotidiano dos processos políticos e, acima de tudo, a acção e pressão colectiva.
A visão de que todos problemas serão resolvidos apenas em eleições é um abraço cego à ingenuidade e inação. As eleições colocam-nos com as velhas opções de sempre. A nossa democracia deve evoluir para um activismo social constante.
É incrível o nosso esquecimento rápido. Da última vez que ouvi um discurso similar de “vingança nas eleições” foi durante as greves de transporte e preço do pão. O vencedor das eleições assombradas pelas greves aclamou-se pela vitória “retumbante”. A vingança não chegou de acontecer. A oposição culpou a manipulação eleitoral, que é verdadeira mas não explica tudo.
Em abono da verdade, aqui se faz e não se paga. A impunidade e o abuso de poder é uma moda das nossas estruturas de poder. O caso das dívidas é mais um episódio ultrajante entre muitos que já tivemos. A contração das insustentáveis dívidas parece resultado de um amadorismo na gestão pública. É de um contra senso galopante que o nosso país tenha se endividado em nome de empresas cuja viabilidade é duvidosa, sem contar a falta de experiência e capacidade de gestão das pessoas em frente das mesmas.
Não serão apenas as eleições nem as nossas frágeis instituições de justiça a resolver tudo.  A crítica constante nunca devem cessar. A ideia é melhorar a responsabilização dos gestores públicos e não a tomada do poder, como erroneamente alguns confundem.  Ainda temos um longo caminho por trilhar no caminho de uma efetiva democracia.


Julho, 2017

sábado, 8 de julho de 2017

Literatura: Banalização do Símbolo Norte-americano no Leviathan, de Paul Auster

Banalização do Símbolo Norte-americano no Leviathan, de Paul Auster
Harold Broom, um dos maiores críticos literário dos nossos tempos e que criara polémica ao ridicularizar a narrativa sobre Harry Potter e o escritor Stephen King, já se referia à genialidade de Auster. Para Bloom, o autor de “Timbuktu” e “Música do Acaso” consta da lista dos escritores contemporâneos que deve ser lido, ou seja, é aconselhável que um amante de literatura o conheça. Desta feita, no presente artigo, pretendemos argumentar sobre uma das suas criações literárias.  
A obra intitulada Leviathan, da autoria desse escritor americano, reintroduz-nos ao conceito de puzzle, como se de um romance policial se tratasse. Na verdade, cabe ao leitor rotula-la, sendo que a mesma parece estar preocupada em se debruçar sobre diversos assuntos, mas, principalmente, sobre as relações humanas - a forma com que as pessoas lidam umas com as outras.

Nesta obra, com recurso à uma escrita simples mas introspectiva, Auster, autor traduzido em mais de trinta línguas, raciocina sobre amizade, fidelidade, amor, digressão, traição e morte. No que toca à morte, logo nas primeiras página da narrativa, o vencedor do prémio Príncipe das Astúrias de Literatura 2006, brinda-nos com uma prolepse, que constitui fio condutor da diegese no seu todo, pois quando se busca compreender a morte do personagem, surgem mais questões.
“Há seis dias, um homem foi morto por uma explosão na berma de uma estrada algures do Wisconsin […] junto ao seu carro, quando a bomba que estava a montar explodiu acidentalmente”, assim inicia a narrativa, com ingredientes básicos para hipnotizar o leitor, seja ele assíduo ou não.      
Na obra, são-nos apresentadas personagens redondas e extremamente inusitadas, como é o caso de Sachs (o homem morto) – revoltado consigo mesmo, bem como com a sua sociedade, aliás, chamá-lo-emos “antipatriota” por se rebelar contra os símbolos americanos, a Estátua da Liberdade. Para este, aquele símbolo não tem nada que ver com a liberdade senão com a exibição da “supremacia” da democracia norte-americana.
 É sabido que Auster, nas suas obras, nos traz sempre reflexões atinentes à sua paixão desenfreada pela escrita e literatura e, neste livro, não será diferente, dado que Sachs, preso e condenado dezassete anos por se recusar a combater na Guerra de Vietname, escreve um romance subversivo, que o intitula The New colossus. 
“Tendo em conta que a guerra grassava no Vietname e que Sachs fora preso por causa dela, não era difícil perceber de onde lhe viera essa raiva”, conta o narrador.    
Provavelmente, essa é uma crítica ao ideal americano de ser “o berço da democracia”, sendo que Sachs é demasiado descontente com o sistema e todas suas acções colocam em causa a integridade da “grande nação”.

Sob o ponto de vista biográfico, o protagonista chega a ter traços semelhantes que os do autor, na medida em que é também escritor e tradutor, regressado da França. Talvez seja uma manifestação do um ulter ego. Ao observarmos atentamente, a ideia de ulter ego pode ser sustentada nas passagens em que o protagonista esbanja comentários sobre os autores que o teriam influenciado no seu processo de escrita; e tais autores são os mesmos que Auster dá referência em suas entrevistas: Mark Twain, Nathaniel Hawtron e Fiódor Dostoiéviski.  
Em linhas gerais, ao nos debruçarmos sobre Levithan é inadmissível contornarmos ao código ideológico que nos faz constatar que o autor nesta obra, através das acções levadas a cabo pelas suas personagens, tinha como pretensão questionar o sistema político vigente nos Estados Unidos e “matar” a ideia de se ser nacionalista.

Autor: Alberto Massango

domingo, 28 de maio de 2017

Música e literatura: As Influências Literária de Raul Seixas, no Krig-ha, Bandolo!,

As Influências Literária de Raul Seixas, no  Krig-ha, Bandolo!,

Franz Kafka, um dos maiores símbolos do realismo mágico senão o maior, nas primeiras décadas do século passado, imaginou um homem “escravizado” pela sua família e, posteriormente, metamorfoseado em insecto monstruoso e repugnante. Provavelmente, essa foi uma das formas que o autor viu para criticar a sua sociedade e dar palavra ao ódio que tinha pelo pai. Por seu turno, Raul Seixas, aquele monstro do rock brasileiro, na década 70, não queria ser outra coisa senão uma mosca a pousar em uma sopa ou a perturbar sonos. Seixas, igualmente, transformado em insecto, tal como a personagem de Kafka, criticava a ditadura militar que se instalara no Brasil. Aqui temos uma semelhança: ambos autores recorrem à metamorfose para criticar o sistema. Daí que, ao se escutar o álbum, Krig-ha, Bandolo!, lançado em 1973, nota-se uma espécie de alusão à Metamorfose de Kafka.  

Aliás, é no álbum, Krig-ha, Bandolo!, que Seixas afirma ser uma mosca, para logo, em seguida, cantar “prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Com a “Metamorfose”, certamente, o cantor quer significar que as pessoas mudam de opiniões, dado que não são estáticas e “podem dizer o oposto de o que disseram antes”. Nesse tema, o músico, através duma linguagem pouco metafórica, critica opiniões dogmáticas e intocáveis. Vejamos, depois de se ter transformado em mosca abusiva, Seixas canta que prefere ser a própria metamorfose – observando-se, de forma implícita, mais uma vez, menção a Kafka. Presumivelmente, e tendo-se em conta o apego excessivo do músico pela literatura, tenha lido Franz no processo de composição dessas músicas, com a ajuda do escritor Paulo Coelho, outro conhecedor e fazedor de literatura.

O título do álbum, Krig-ha, Bandolo!,  já nos submete a uma grande metáfora – pois, segundo Seixas, em várias entrevistas após o lançamento do mesmo,  tem que ver com o grito de Tartzan – homem que assimilara comportamento animalesco (macaco). A partir desse grito de Tartzan, pode-se chegar a ideia da metamorfose – “um homem transformado em animal”. Ainda na esteira da metamorfose, Seixas afirmara ser amante da obra de Kafka, bem como lera, incansavelmente, Metamorfosis, do clássico romano Públio Ovídio Naso – daí a relação intrínseca entre essa obra musical e a literatura. 


“Eu sou astrólogo/ vocês precisam de acreditar em mim/ e conheço a história do princípio ao fim” – nessa faixa, o cantor revela-se conhecedor da cultura popular, parodiando figuras como: Júlio César, Jimmy Hendrix, Jesus Cristo e Al Capone. Na verdade, esse último nome é que vai intitular essa sétima faixa do álbum. Como muitos chamaram-no, Seixas é um “rockeiro” maníaco mas com muito conteúdo, dado que, de forma cómica, fala de coisas profundas, tal como na “Ouro Tolo” em que afirma que o material não é suficiente, falta sempre alguma coisa, que talvez seja inalcançável. “Eu devia estar contente/ por ter conseguido tudo o que quis/ mas confesso abestalhado/ que estou decepcionado”- canta, o baiano.

“How Could I Know”, esta faixa pode ser percebida como um hino dedicado a qualquer artífice, não obstante o facto de Raulzinho estar a falar da sua luta pela música, sendo que alerta que “é chegada a hora de se reformular, a partir do princípio, o jogo no qual estamos metidos, pois Jesus Cristo criou suas regras e não mais voltará”. Que tipo de conversa se pode ter entre uma pessoa calada e uma outra com medo de falar? Esta é a questão que surge ao se escutar “Hora do Trem”, peça com apenas um minuto e cinquenta segundos, mas rica de significados - cabe ao ouvinte atribuí-la algum sentido.

O romantismo neste álbum, faz-se sentir na faixa “Cachorro Urubu” em que o sujeito poético, que se auto-denomina índio sioux, lamenta o facto de o seu relacionamento afectivo ter findado antes mesmo de começar. Em seguida, sejamos bem-vindos à abstracção - isso na faixa intitulada “Dentadura Postiça”. Aqui, o músico parece ser comandado por uma ambivalência que grita “vai cair/ vai subir” – não é claro o que o autor quer significar – talvez resida aí a essência da sua poesia.


“Veja quanto livro na estante Dom Quixote, o cavaleiro andante/ luta a vida inteira contra o rei” – mais uma razão para que  Krig-ha, Bandolo!  seja conotado como uma obra com influências literárias e, neste caso, Seixas seria o tal cavaleiro andante lutando contra a ditadura militar: nas “Minas do Rei Salomão”. Para encerrar, segue-se o positivismo misturado com auto-estima na faixa “Rochixie”, sendo que Seixas afirma que “o que eu quero/ eu vou conseguir (…) aprendi que sou mais forte que você”. Na verdade, o álbum inicia com uma gravação sem qualidade com o título “Good Rockin’Tonight”, onde o baiano canta “we’re gonna rock, rock and rock”. Então, ao escutares o álbum, não te esqueças, just rock. 

Autor: Alberto Massango

Fim//   

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Conto:Submissa

Submissa
Autora : Cawen

Só queria uma noite de amor com ela. Vi que estava indisponível, mas eu estava afoito e queria tocar aquele corpo unicamente meu. 

Eu sou um esposo exemplar: sou fiel, não bebo nem fumo. Bem, não tenho nenhum tipo de vício. Mas em dias como esse o meu apetite sexual aumenta.

Não sei que tipo de força me guiou. Fui bruto e obriguei-lhe a me receber, a ceder às caricias de homem sedento. Dirigi-me a minha doce amada esposa com um toque mais forte do que de costume, levei-a ao nosso ninho de amor e, já domado pela vontade e cegado pelo stress, zás. Forcei!

Consumado o ato e o stress aliviado, ficou o peso na consciência. Matei a minha fome. A minha esposa foi Submissa e, embora tenha tentado evitar, fui um machista incorrigível. A amo infinitamente, mas estava adubado de sentimentos diversos que camuflaram a luz do amor nessa noite negra. Perdi o idealismo romântico.

Espero que não se torne rotina. Já tive dias piores, mas nem por isso pautei pela agressividade - até porquê ela não resolve.

Consegui o que queria da pior maneira, ela não estava ali para mim. Seu corpo normalmente quente estava frio. Não sei o que me fez prosseguir se rareavam os habituais gemidos suaves da sua boca melíflua.

Foi penoso para mim e mesmo sem ter sequer reclamado vi no seu semblante a tristeza. É mais compensador quando há uma sintonia, quando tudo joga, quando de facto nossos corpos se fundem. 

Quando é assim tudo flui na maior firmeza, senti falta dela ali.
Não foi simpático da minha parte, pelo que me arrependo. Poderia eu até crer que estava possesso. Não é de minha índole assim prosseguir, ainda mais quando trata-se da mulher que eu amo.

No dia seguinte, ainda assustada, senti nela o repúdio. Palavras me faltaram para pedir perdão.

Sei que os dias irão passar e tudo isso irá passar com eles. Tenho feito tudo para me redimir. Aceitei aprender com os meios erros e, no fim, o amor entre nós triunfará, espero que não nos aprisionemos no escuro e que, como uma verdadeira fénix, o amor reconfortante ressurge das cinzas.


sábado, 20 de maio de 2017

Crónica: Uma noite cheia

Uma Noite Cheia
Autor: Mariano Mucueia
Todo começou naquela manhã, quando fui à faculdade. Novo ambiente, novas tendências, novas dinâmicas; diferentes das que vivi na escola de proveniência. Agora, o medo emocional exterminou a minha felicidade inabalável de ter admitido à Universidade. Como sempre, os repetentes e os “não-caloiros”, têm discursos assustadores. Merda! estou trémulo, não consigo me equilibrar.  um grande frio aperta a minha barriga.
─Aqui se chumba para caramba, putos!.. Acham que é escola secundária? Esqueçam. Vocês devem colaborar com os colossos…
Bom dia…! O professor chegou. Armando, aquecemos mais tarde estes calas. Retirava-se o Sérgio, balbuciando como quem sabe mais. Uma grande tremura dominava o Saraiva. E perguntou ao Bonzinho.
─ Que disciplina lecciona o professor que acaba de chegar? O Bonzinho respondeu com uma cara amarfanhada, como quem não gosta do professor. ─ Ele será seu professor na cadeira de Viagens do pensar Humano. Viagens do pensar humano? Perguntou Saraiva , perplexo.
─ Estou doido para ouvir dele estas viagens! Pois o homem é um ser muito complicado de entendê-lo.
O professor, como de hábito, no primeiro dia da aula, entra pela porta de traz.
Bom dia estudantes! Bom dia Dr.! Respondermos em uníssono quase todos felizes. O professor foi alto fuinho forte, na verdade quando entrou pensei que fosse um militar, mas estava enganado. Eu esperava um senhor gordo, barrigão calçando um sapato da última qualidade, porém foi o mais simples comparativamente aos meus colegas. Onde percebi que os que têm não estão preocupados com o que os outros falam, apenas fazem o seu trabalho.
A aula começou. Com o seguinte tópico: Qual a espécie mais inteligente, animal ou Humana? Esta questão pareceu-nos a mais fácil de responder. A ciência nos ensina que o Homem é a espécie mais privilegiada e inteligente. Esta resposta era do senso comum, mas o professor não concordou, consequentemente deveriam levar a questão como trabalho para casa. 
Depois de largar, tive que ir à biblioteca mas sem sucesso voltei. Já eram 18 e meia, tive que voltar para casa, todo cansado. Uma pasta grande, cheia de textos de apoio. O telefone tocou. Já, tive medo que fosse Nélio pedindo ajuda, mas foi outra pessoa.
Um número estranho até que não cheguei de atender, pois, não foi fácil, me desconcentrar e pegar no telefone, decidi desligar para não ser distraído novamente, o silêncio da noite me ajudara a ser bom estudante. Bem, não foi fácil, arrumei naquela noite, todos manuais que falam da obra de Platão e Aristóteles. Merda! Não gosto de leitura e hoje estou, aqui, à mesa, rodeado de livros, além disso, nem gosto de fazer trabalhos também, dado que, para mim, sempre foi um caus. 
O meu professor da terceira classe sempre reclamava. Mas essa não é a boa, a boa é que sempre que viesse queixar ao meu pai, eu recebia boas chapadas. Mesmo assim, com cada chapada parecia tornar-me cada vez mais burro. E agora, se o meu irmão mais velho encontrar-me logo rodeado de livros quase que não vai acreditar. “Logo! você preocupado com o dever de casa?”, perguntaria. Minha praia sempre foi ver filmes que, no final, o vilão vence, e sempre gostava de ler livros, não por recomendação, mas por vontade própria, é claro livros clássicos portugueses. Meu pai estaria orgulhoso por isso, acho que mudei muito.
Estou a ficar sonolento! Logo penso em tomar uma xícara de café. Enquanto preparo-me, o telefone toca. Afago o nariz, aproximando a mão direita para atendê-lo. É uma mensagem da minha namorada. “Tudo bem, meu amor? Escrevo-te para desejar bons estudos”. Que é isso? Ela só escreveu-me para desejar bons estudos! Franzo a testa com a mão esquerda, coçando-a. Tenho uma grande responsabilidade. Penso.
Na mensagem vejo seus lábios formosos, seu andar atlético que me lembram as ondas do mar, seus seios picantes contra o meu peito, o seu olhar angelical, a soar voz rítmica, suave da timbila,  que os meus ouvidos dizem sim, sim. Quando fala singela para mim… Que Deus me livre! Já é meia-noite, e eu distraído pensando na minha namora ao invés de voltar a fazer o meu trabalho.
Ed/AM
Continua…




sábado, 6 de maio de 2017

Música: DAMN, o Ego de Kendrick Lamar

DAMN, o Ego de Kendrick Lamar

Autor: Alberto Massango
Tudo começou em 2012, quando kendrick Lamar lançou o seu segundo álbum de estúdio, intitulado: Good Kid M.A.A.D City, que na verdade parece ser o seu primeiro, dado que foi a partir do mesmo que o rapper obteve mais visibilidade no mundo do Hip-Hop e foi positivamente aclamado pela crítica. O seu álbum de estreia, Section 80, também teve uma boa recepção, entretanto será com Good kid M.A.A.D City que Kendrick Lamar se tornou mais popular, com músicas como – “Poetic Justic”, com a participação de Drake, e “Bitch don’t kill my Vibe”, com Lady Gaga - esta última tendo merecido uma remix de Jay-Z. Após esse álbum, rondaram vozes cépticas questionando se o miúdo de Compton, Califórnia, poder-se-ia ou não reinventar (a mesma questão que se levanta quanto se fala sobre o rapper português Valete, após ter alcançado sucesso e influenciado uma geração de rappers, nos países lusófonos, com os álbuns Educação visual e Serviço Público). 
No entanto, pelo visto, Lamar conseguiu calar tais vozes, pois o seu terceiro álbum posto no mercado em 2015, To Pimp a Butterfly (TPABF), um disco que mistura Hip-Hip e elementos de jazz e funck, na faixa “I”, por exemplo, resgata o lendário grupo The Isley Brothers, mostrando criatividade e fluidez no seu esquema rimático. TPABF chegou ao topo da Billboard 200, com 363 mil cópias vendidas na semana de estreia, só nos EUA, tornando-se um dos álbuns de Hip-Hop mais vendidos e relevantes – razões suficientes para afirmar que Lamar convenceu uma boa parte da crítica e não só. Aliás, TPABF, com temas que se debruçam também sobre questões raciais e políticas, teria levado Kendrick à Casa Branca, a convite pessoal de Obama, dado que este teria escolhido a faixa “How Much a Dollar Cost” como a sua preferida de 2015.
Até agora, dentre os álbuns citados acima, o TPABF é a obra mais importante de Kendrick Lamar, pois, segundo a crítica, é um disco que aborda diversas temáticas, com diferentes variações rítmicas, misturando diversos géneros musicais. Já ano passado, o rapper lançou o Untitled Unmesked, que, na verdade, é uma colectânea de músicas compostas durante secções de gravação do To Pimp a Butterfly – tendo sido destacado como um dos melhores álbuns de 2016.   
Lamar, como um bom soldado que não adormece e nem deixa de se reinventar, em Abril do presente ano, exactamente na semana santa, brinda-nos com uma outra obra musical – que já é uma das melhores lançadas em 2017. A mesma chama-se DAMN., álbum que contorna a linhagem dos álbuns anteriores, dado que o rapper, desta vez, optou, na maior parte das faixas, em falar do seu ego, dos seus medos, cobiças, ambições e sentimentos. Nesse disco, temos um Lamar mais maduro e franco, afirmando na faixa, “Fear”, trabalhada por Alchemist, produtor influente no sistema underground, que teme perder a criatividade.
DAMN. inicia com uma bela narrativa, “Blood.”, mostrando o quão Lamar é um bom contador de histórias, em que um homem se dispõe a ajudar uma mulher cega e frustrada, a encontrar algo que ela teria deixado cair mas esta, simplesmente, tira uma arma e dispara contra o homem. Metaforicamente, Lamar quer significar que não vale a pena ser altruísta ou honesto para com as pessoas, pois sempre nos trairão. K-Dot, na segunda faixa, afirma que no seu DNA. possui lealdade, paz, guerra, veneno e ambições – o mesmo que dizer que o bem e o mal são intrínsecos ao ser humano. 
Depois segue-se “YAH.”, que só pelo título o rapper parece estar cansado de dar satisfações, afirmando que os media ouvem suas opiniões para, na verdade, ganharem prestígio. Na quarta faixa, “ELEMENT.”, Kendrick reafirma o seu pacto com a música, gritando, nos primeiros versos, que está disposto a morrer por ela. É na música “FEEL.”, a quinta e uma das introspectivas, que Kendrick se sente inseguro e medroso, pois, segundo este “as pessoas querem que eu reze pelo mundo mas ninguém reza por mim”. Numa batida um pouco calma e lenta, Lamar, na faixa “LOYALTY.”, convida Rihana para pedir confiança e lealdade à sociedade, acrescentando que “It’s so hard to be humble” – esta é uma daquelas faixas que merece ser repetida sempre. Em seguida, na “PRIDE.”, teremos um Lamar mais deprimido, que não ama suficientemente as pessoas para confia-las. Mais uma vez uma questão direccionadas às relações humanas.

Após ter-nos nutrido com sons introspectivos, o miúdo de Compton, numa instrumental agitada e ideal para se dançar, brinda-nos com “HUMBLE.”, a mais popular do álbum – nesta, Dot não pede muita coisa senão humildade. Aliás, há quem afirma que essa é direccionada aos rappers Big Sean e Drake. “I just need you to want me/ am i asking too much?”, Lamar questiona na nona faixa, intitulada: LUST.  Depois da cobiça surge o amor é, desta feita, que temos em seguida “LOVE.”, com a participação de Zacari, um som mais relaxado à semelhança de “LOYALTY”. 
Até agora faltava um aspecto comum em Kendrick, que é dar referência à questões políticas, assim sendo, na décima primeira faixa, “XXX.”, Lamar vai manifestar sua simpatia pelo ex-estadista Obama em detrimento de Trump. A décima segunda é a faixa “FEAR.”, em que King Kunta questiona a Deus: Qual é a razão para tanto sofrimento na terra. Estamos quase no fim do álbum e Kunta está mesmo farto de dar satisfações e, na música “GOD.”, pede não ser julgado pelos seus actos.
Com essas faixas, já é suficiente para afirmar que DAMN, da autoria de Kendrick Lamar, é um álbum bem conseguido à semelhança de To Pimp a Butterfly e Good Kid M.A.A.D City. No entanto, para encerrar, ainda somos brindados com a música “DUCKWORTH.”, produzida por 9th Wonder, um monstro do Hip-Hop que já trabalhou com artistas de alto calibre como: Common Sense, kanye West, Beyoncé, Mary J Blige e outros. “DUCKWORTH.” é uma das melhores músicas do álbum, que nos últimos segundos, através  duma analepse, guia-nos ao início do álbum. Na maior parte das músicas, Dot trabalhou com o seu habitual produtor da Top Dawn Enterteinment Sounwave.          
Fim//





segunda-feira, 1 de maio de 2017

Crónica: Não estou à mercê de Ninguém

Não estou à mercê de Ninguém  
Autor: Albert Dalela
Fodas! Estou aqui sentado, não me pergunte onde, pensando na vida. Penso quase em tudo - na família, amigos, namorada, prostitutas, cigarros, faculdade e etcétera- os dias tornaram-se longos de mais, 24 horas parecem 72. Quando acordo, rezo para que o dia acabe logo. A minha rotina é mesmo uma foda, se não fico em casa lendo, vou à faculdade assistir às aulas ou tentar me apaixonar por uma garota que me mereça. Algumas aulas são boas e outras uma autêntica merda, só dão vontade de bocejar e dormir. Na verdade, só tenho respeito por um único professor, um tal Arturo, por este não dar relevância às burocracias curriculares e por se preocupar com o bem-estar dos estudantes.

- Pra mim, não interessa muito a nota do teste, quero ver a aplicação do estudante na aula, diz o professor Arturo, acrescentando que a nota não prova o quão um aluno é inteligente ou interessado em aprender e que nem sequer constitui item que demonstra coeficiente de inteligência.

Bons pedagogos ainda existem, aqui está o Arturo, um senhor baixinho, careca, gay e homofóbico. Nunca percebi como é que um tipo gay era ao mesmo tempo homofóbico. Deixando disso, entretanto, tenho uma enorme admiração pelo professor Arturo.

O resto dos professores constitui um grupo de merda, verdadeiros burros que fingem ser génios. Um dia, durante a aula, discuti seriamente com um dos professores, um tal chamado Couto. O motivo da discussão foi o seguinte: eu estava no quadro, resolvendo um exercício daí que não o acertei completamente tendo sido, para Couto, um motivo para chamar-me nomes.

-Tu és um burro mesmo, como foste capaz de errar este exercício? Vocês não estudam, pah, seus filhos da puta – disse aquele Couto. A partir de já, recuso-me a tratá-lo como professor, aquele gajo é um filho da mãe que não merece nenhum título. Porque tudo que começa finda, eu queria pôr um fim naquilo, estava cansado de ser insultado. Posso até ser um quadrado mas nego que me chamem filha da puta, daí que respondi aos insultos.

- Você é um filho da puta também, senhor, por isso é que está entre nós teus alunos, que o senhor prefere chamar de filhos da puta. Estava com muita raiva, já fazia tempo que o Couto nos humilhava.

- O que disseste? A partir de hoje, estás proibido de assistir às minhas aulas. Assim sendo, saia daqui e não volte mais – foi o que Couto disse de imediato. Não pensei duas vezes para dizer alguma coisa após ter sido mandado embora da minha sala, infoestrutura construída com o dinheiro do povo.

- Não há problema, vou-me embora. Levo tudo que me pertence e me despacho daqui, fica o senhor com esses imbecis que aceitam ser chamados de filhos da puta. Eu não sou um deles, por isso, não se preocupe, saio daqui e nunca mais volto e, já agora, Tchau, filho da mãe. Pus-me fora da sala com os meus pertences. Pude ver o semblante do Couto, irritado. Em parte, pensei que ele estivesse arrependido mas, como se sabe, idiotas nunca se arrependem – pensam que arrependimento e redenção só devem constar do dicionário e ponto final.

“Dizem que faço parte duma geração perdida e sem futuro, uma geração de miúdos que não sabem nada, por isso ninguém se importa. No entanto, pergunto, como sou capaz de aprender se tenho um professor que me insulta ao invés de me mostrar o correcto?”, foi o que andei a pensar, quando já me encontrava bem distante da sala, matutando no perigo que professores como Couto significavam para o nosso sistema de educação, se realmente tivermos algum. Já não quero falar sobre o Couto, basta, pois não estou à sua mercê.

Ainda estou aqui sentado, já disse para não me perguntarem onde, agora com o pensamento concentrado na minha namorada. Aliás, não tenho namorada, sempre achei ridículo ter uma namorada – nunca gostei de dar relatórios, dizer o que faço, onde estou, com quem estou e etcétera. Namorar significa ter tempo para dar relatórios, pelo menos é o que tenho visto por aí. Para falar sério, com os meus vinte e um anos, só tive uma namorada e umas quatro meninas que fingi serem minhas namoradas, isso sem dar referência à miríade de gajas que andei a pegar. Não me levem a mal, não sou o que vocês pensam que sou - um mulherengo ou algo que o valha – meti-me com todas essas tipas na tentativa de encontrar um grande amor mas, para o meu azar, só conheci tontas e viciadas em sexo.

Falando em viciadas, vem-me a mente uma moça que a conheci numa livraria, em Maputo. A tipa chamava-se Madalena, tinha um óptimo corpo, uma face meio artificial mas interessante, seios que chamavam atenção, se interessava por livros apesar de serem aqueles cor-de-rosa – os que se debruçam sobre moda, com um daqueles títulos: como andar de mini-saia durante o inverno. Essa tipa foi uma daquelas que fingi ser minha namorada. Andamos juntos por três meses, víamo-nos quase todos os dias e fodíamos no mínimo dez vezes por semana. Enquanto “namorados” só abdicávamos do sexo quando ela estivesse de período. Mesmo assim, ela se mostrava interessada em trepar mas a menstruação não permitia tal acto.

Ainda nos estávamos a conhecer, eu na expectativa de me apaixonar e ela já firme na ideia de que eu era o seu amor. Assim sendo, constatei que seria melhor terminar, pois não a amava e não fazia sentido mantê-la na expectativa de ser amada. A Madalena entrou em crise, mudou-se de Maputo para Beira e nem sequer pensa em regressar. Essa foi a última tipa que “namorei”. De lá para cá sou solteiro e gosto disso, não quero saber de mulheres nem amor. Não dependo deles.    
     
“Mamã, estou a chegar”- um minuto, volto já, a minha mãe me chama. Volto logo para continuar...                                                                                                                                               

segunda-feira, 27 de março de 2017

Livre: Marina

Marina

                                                                                               Por :Cowen da Conceição 


Iniciei cedo a caçada, como um homem faminto de liberdade. Nunca me prendi aos relacionamentos, fui um “galanteador” hábil e que tão cedo tirou de si o que apelidou de deficiência, a virgindade. Foi com a Anabela, que só tinha de Ana e nada de bela.

Por curiosidade me senti Homem e satisfiz a vontade. Quando dei por mim era um “caçador”. Fiquei com a Júlia, boa de cama, bem magrela e com um corpo escultural que me entontecia de prazer e fazia-me suspirar alegremente. Porém, como de costume, me cansei dela.

Depois dela fiquei com mais Júlias, tantas outras Anabelas e também algumas Cacildas e assim, nesse ar de curtição, levei a vida. Provei de tudo um pouco, até as coisas inebriantes. Fui capaz das piores atrocidades só para alimentar minhas futilidades. Troquei mais de mulheres do que escova de dentes em um ano e quis mais. Então voltei para o manancial em pensamento e vi que realmente iniciei cedo a devastação que perdi a conta de quantos corpos toquei, quantos corações machuquei. Chego a pensar se fui insano.

Enfim, continuei agindo como se eu fosse imune a tudo e a todos, até que, num dia ensolarado, conheci Marina, miúda de um nome com algo que me fascina, o mar com o seu ensejo que me intriga. Marina era uma doce e meiga miúda, ingénua e inocente. Ela, sim, foi a minha mais excitante conquista engatada pelo meu lascivo ar arrogante revestido de bom moço.

Fui na mansidão, afinal esta era mesmo especial, minha donzela. Com ela tive mais trabalho e mesmo assim não desanimei muito. Pelo contrário, encarei tudo como um desafio, que nem mesmo quando pensei que jamais conseguiria o tão querido fruto prossegui na maior frieza e fui muito bem calculista.

Eu queria uma transa como nunca, então, ressuscitei em mim todo tipo de palavras de carinho. Na verdade, só mentiras, palavras baratas. Menti como ninguém para explorar aquele casto corpo. Algo de que sinceramente não me orgulho e num belo dia a convenci finalmente. Quebrei suas crenças de um amor puro “casamento com virgindade“. Sem dúvidas esta foi a que mais sofreu comparativamente com as outras. Só não sei porquê não parei, porquê fui tão cruel.

Foi tudo bem arquitectado. Cuidadosamente, a maçã passou de verde para maturada e suculenta. Quanto mais perto da Marina eu ficava, mais distante me sentia e me cansei mais rápido e fugi dela.
Ela me procurava e eu inventava inúmeras desculpas. Estava mais é me divertindo como sempre e como nunca. No fundo, tudo isto que eu fazia, só me fazia sentir-se infeliz. Principalmente quando lembrava que Marina pensava que estávamos a namorar. Então resolvi abrir o jogo para ela e ali vi no seu olhar a desilusão que eu plantei. Foi uma grande catástrofe, uma enxurrada inexprimível de sentimentos. Com certeza ela sentiu e, mesmo assi, virei e fui embora.~

Continuei assim incansavelmente, provando até do proibido com um gosto ardente. Se calhar até pode ser um comportamento doentio este desencadeado por mim, mas estou levando a vida como posso e o ganho nisto tudo é experimentar o novo.


Não sou o único, nem o primeiro e, muito menos, o último. O que difere a mim dos outros é que eu conto aqui a minha história sem vanglória. Fiz-me vagabundo  e bem lá no fundo só caiu na minha lábia quem quis. Talvez devesse arrepender-me e buscar perdão, mas pau que nasce torto assim permanece.

Crónica:Nada Muda

Nada Muda
           Por:Lino A. Guirrungo
“A chuva é uma bênção de Deus”. Aqueles que creem assim nos lembram quando se apercebem que um evento pode ser prejudicado por essa faceta da natureza. Esperava que não chovesse naquele São Valentim. Só isso poderia tornar o meu dia ainda mais ruim.
No meu trabalho, como desde o primeiro dia que lá comecei, as actividades eram muito frustrantes. Com mais tempo de experiência de desemprego que de trabalho, mesmo com um inútil certificado de licenciatura, eu encontrara o “tão procurado emprego” na restauração. 

A minha formação havia me preparado para um mundo de produção científica que nunca chegaria de conhecer. Eu já estava resignado, precisava era de colocar comida na mesa urgentemente.
A rotina resumia-se a sorrir irrepreensivelmente e a ser agradável com os clientes, minha obrigação como servente. Isso até era fácil, nossos clientes não tinham culpa dos meus desaires. Aturar o meu patrão é que era um saco. O tipo falava cada asneira recheada de palavrões que só mesmo o seu salário miserável impedia-me de o esmurrar.
O clima de aparente cumplicidade entre os nossos casais clientes era indescritível. Alguns dos seus sorrisos eram sinceros outros tão mecânicos que se envergonhavam mesmo diante do meu sorriso profissional. Ouvi em algumas mesas declarações de amor em línguas diversas, aliás, em línguas que eu falava (Italiano, Changana e Francês). O amor era uma constante naquele dia e os lucros garantidos para o meu patrão. De repente, descobri-me a pensar na minha noiva Amália e na nossa relação.
Eu e a Amália também éramos tão falsamente cúmplices como os casais que atendia. Mas isso foi antes do abandono. Quando involuntariamente engravidei a minha noiva, os seus parentes decidiram abandoná-la na casa dos meus pais. Eles disseram que era a minha obrigação não só assumir o filho mas também noivar com a miúda. Mentira. Queriam era, sim, se livrar do fardo económico que a filha representava. Depois de um aborto espontâneo, Amália não regressou à casa dos seus pais. E isso foi há um ano...
Recordei-me do último São Valentim que tivemos juntos. Fomos jantar juntos num desses restaurantes luxuosos da cidade. A melhor amiga dela frequentava os tais restaurantes com os seus incontáveis namorados, pelo que a recomendou a ir comigo.
Eu estava furioso porque considerava o São Valentim um dia sobrestimado. Depois de meses e meses sem nenhuma demonstração de amor, ela me atirou um “eu te amo” e ainda pagou a conta sozinha. Isso me comoveria em tempos, mas eu sabia que não nos amávamos e, pior que isso, sabia como ela havia arranjado o dinheiro da conta.
Dois meses antes daquele estúpido jantar, eu descobri que ela transava com um trintão bem-sucedido. Na época fui consolado pelas palavras d'O Sétimo Juramento, dizia lá a autora que “ser traído amanhã, é viver mais um dia de ilusão. É melhor que a traição seja hoje para que a lealdade seja amanhã.” Confrontei a miúda, na esperança de garantir um amanhã de lealdade que nunca chegou de acontecer. Levei muito tempo a perceber o idealismo da frase.
Nossas irmãs são muito incompetentes no quesito da fidelidade. Enquanto eu trabalhava para o meu ignóbil patrão, nos turnos que ele bem entendia, minha noiva imitava a melhor amiga nas transas por troca de bens.
No entanto, eu entendia a minha noiva. Nunca a amei no verdadeiro sentido. Passei a maioria da minha vida esperando amar uma mulher ideal, como uma dessas personagens de filmes de comédia romântica de Hollywood, ignorando que um tipo muito magro e pobre que sou também não é o protótipo das garotas. Depois de uns tempos de sexo passageiro comigo, ela foi arrastada ao acaso para o lar dos meus pais, que sempre brigavam sem razões aparentes, ainda assim melhor que o da sua casa.
Amália sempre me aturou, desde os tempos em que eu ainda tinha manias de "intelectualizinho" de esquerda no desemprego, até hoje que sou um jovem sem nada de esquerdismo, vazio e pessimista. Seria de muita ingenuidade esperar que ela fosse fiel a um tipo como eu. A verdade é que ela era uma volátil sem opções além de mim, enquanto eu era um romântico solitário precisando de sexo. Nem me arriscaria a buscar uma outra garota, até porque como diz o ditado: “mais moída ou menos moída, é tudo farinha do mesmo saco”.
Quando retornei da transe da minha relação, ouvi o meu patrão gritando comigo sem parar. Por muito descuido, quebrei um prato com refeições. A regra da casa era clara, o prejuízo seria descontado do meu parco salário. E daí? Nada muda, nem no São Valentim tão lucrativo! Minha vida continuava miserável. Nem me dei ao trabalho de me desculpar, esperava apenas da minha hora de saída.
Já sabia bem o que faria naquela noite. Se a noite não fosse “abençoada” com a chuva, iria fumar, beber um pouco e depois procurar, no seu território, as praticantes da profissão mais antiga do mundo. Mesmo ainda sendo minha noiva, Amália provavelmente estaria num jantar com o maldito trintão. Assim por bem eu expectava, seria horrível encontrá-la onde iria mais tarde.



Opinião: AS MENTIRAS DO NOSSO TEMPO E O CAMINHO PARA O FUTURO

AS MENTIRAS DO NOSSO TEMPO E O CAMINHO PARA O FUTURO Créditos : AS por:Lino A. Guirrungo (Jan, 2019) Eu nasci pouco depois que...