quinta-feira, 30 de julho de 2015

Crónica: As Brasileirinhas (pornografia nos finais dos anos 90)


 
                           Por: Estêvão Azarias Chavisso


Embora tenha crescido dentro de uma família conservadora e professante dos valores cristãos, sempre tive uma forte inclinação para o “profano”. Eu tinha pouco mais de dez anos quando meu primo apresentou-me sua “inocente” colecção das Brasileirinhas - os melhores vídeos pornográficos produzidos no Brasil. Meu primo, cinco anos mais velho que eu, foi uma das primeiras pessoas que, nietzschianamente, estimulou os fervorosos apetites sexuais escondidos por detrás dos óculos daquele menino inocente, mas de natureza selvagem. Na época, finais dos anos noventa, não tínhamos a sorte de ver as brasileirinhas em HD (Alta Definição), víamos numa qualidade lamentável, mas a vontade era maior. Aliás, se na altura era difícil ter um vídeo cassete em casa, era mais complexo ainda ter uma cassete das brasileirinhas escondida entre os livros da estante.

Meu primo, milagrosamente, possuía tal “preciosidade”, pelo que, pelo menos ao nível do seu bairro, tinha a fama, o respeito e, sobretudo, a legitimidade necessária para falar das mulheres entre os seus. Ele vivia no Bairro de Chamanculo, um dos mais perigosos da Cidade de Maputo e com alto índice de natalidade. Durante os finais de semana, principalmente nos finais do mês, os meus tios (pais do meu primo) saíam para festas familiares, deixando livre o território para “reuniões clandestinas” – sessões de exibição de filmes pornográficos com mais de sete homens na sala.

Em parte, para mim, aquela realidade era traumatizante, na medida em que cada um tinha sua forma particular e, por vezes, inusitada de responder a determinados estímulos. A sessão tinha pouco mais de 30 minutos, entretanto, muitos mostravam-se já satisfeitos nos primeiros dois –  não entendia porquê.

Depois do ritual sagrado, o meu primo, o líder da “congregação”, fazia um breve resumo do que foi a sessão, lembrando algumas passagens marcantes do filme – desde as posições das actrizes até aos gemidos dos actores. Eu, o mais novo do grupo, suspeitando de tal atitude, pouco dizia. Aliás, nem tinha muito a dizer, entretanto, observava cada momento calma e atenciosamente. Era uma situação estranha, mas muito interessante. Engraçado, apesar de ser o líder, meu primo, tal como todo o grupo, não tinha uma namorada. Ora, embora tivéssemos um respeito pelo nosso majestoso líder, sabíamos que ele não colocava em prática nenhuma daquelas brilhantes técnicas.

Apesar disso, eu gostava de estar com ele, e, principalmente,  ouvi-lo explanar os segredos do sagrado corpo feminino. As visitas ao bairro do meu primo começaram a ser frequentes, principalmente nos finais do mês. Minha mãe, desconfiada deste repentino sentimento de irmandade, chegou a questionar-me sobre as constantes visitas ao Bairro de Chamanculo. Eu, olhando para os seus olhos e abanando a cabeça com ar de adulto, limitei-me a respondê-la nos seguintes termos:“ Experiência, experiência, troca de experiência”.

Hoje, depois de tanto tempo, minha paixão pelas artes pornográficas continua a mesma de há dez anos, embora os filmes contemporâneos agridam a minha sensibilidade - tomando em consideração a forma desumana como as actrizes são tratadas. Apesar da qualidade ter evoluído, as maquinas terem sido aperfeiçoadas e os cenários terem sido readaptados com estilo moderno, falta sensibilidade por parte dos actores, que destroem o momento sublime do contacto entre  corpos que clamam por prazer. Este problema legitima, em larga escola, a indignação do movimento feminista que floresce, principalmente, a partir da primeira década deste século, liderado por escritoras como Andrea Rita Dworkin, assumidamente em oposição à pornografia.

Eu, em respeito à minha infância e a minha actual condição, sou a favor da 7ª arte, seja ela pornográfica ou não - como bem disse numa entrevista o cineasta Sol de Carvalho. Aliás, a realidade manda-me questionar, o que seria de nós, actualmente, sem um bom filme pornográfico?

Actualmente, a indústria de pornografia cresceu demasiadamente, pelo que, nalguns centros principais de produção de filmes pornográficos, foram estabelecidas até regras para gerir tão “delicada” actividade. Graças às artes pornográficas, a clássica troca de fluidos orgânicos, actrizes como Tori Black, Audrey Bitoni e, a minha favorita, Belladona, entram nas “telinhas” dos nossos computadores, assiduamente, para nos fazerem companhia durante alguns minutos nas longas madrugadas solitárias. Hoje, a indústria está mais organizada e lucrativa, tanto que atores como Evan Stone, Evan Seinfeld e Lexington Steele já possuem fortunas estimadas em 3 a 4 milhões em património líquido.

Infelizmente, o meu primo (meu mestre) já casou-se. O grupo desfez-se e, por tal, não mais temos nossas sessões fervorosas de sábado à tarde. Aliás, não mais nos vemos com frequência e muito pouco conversamos. Hoje, nas primeiras horas da manhã, cruzei-me com ele na rua, está gordo e já trabalha. A primeira coisa que fiz foi questionar-lhe sobre a nossa sagrada cassete das brasileirinhas e  ele respondeu: Está lá, no mesmo lugar de sempre, à espera de uma nova geração para dar continuidade à tradição.
Fim

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