domingo, 9 de junho de 2013

Ética


O Diálogo Cultural como Solução para o Paradigma Ético Contemporâneo
                                                                                        
                                                                             Autor: Estêvão Azarias Chavisso
                                                                                                   Estevaochavissohb@gmail.com  



Comummente, em quase todo lado, os debates sobre a questão ética e moral já são um hábito. Acompanhados de redundantes discursos de intelectuais de "esquina", teorias sobre a questão ética e moral actual são, de forma especulativa, atreladas à crise de valores que assombra a época contemporânea – o que até certo ponto corresponde a verdade. Nas academias o cenário é catastrófico. A ética foi cunhada meramente como uma cadeira didáctica, abstida da prática por parte dos estudantes.

Temendo analogias com intelectuais de "esquinas", é imperioso que antes de mais definamos os conceitos básicos do artigo em causa; ética e moral. O que é a ética? E o que é a moral? 

Henrique C. de Lima Vaz, em sua obra denominada Introdução a Ética Filosófica, demonstra a deterioração semântica do termo ética na sua migração incessante por tantas formas diferentes de linguagem, isto no contexto contemporâneo. Portanto, para uma concisa definição de ambos conceitos, importa voltar à época clássica para buscar a figura de Aristóteles, considerado o primeiro definir com precisão o termo ética.

Para Aristóteles o termo “ethos” pode ser traduzido como exercício constante das virtudes morais, ou seja, como um exercício da investigação sobre os costumes. A moral, por sua vez, é de origem latina, mas, tem como base etimológica o termo “mores” oriunda da palavra grega “ethos”. É na esteira disto que se pode concluir que ambos termos tiveram sempre algo em comum no que concerne a sua etimologia, de tal modo que por muito tempo foram indissociáveis.

A tendência de separar a ética da moral, afirma Lima Vaz, surge na época contemporânea. A ética passa a designar o estudo do agir humano social, a moral, por sua vez, é conotada como estudo do agir humano individual. Assistimos a morte do cidadão para o nascimento do indivíduo.

O protótipo de homem clássico está extremamente ligado à sociedade. Deseja, antes de mais, o bem colectivo e não o bem individual, é por excelência cidadão. Em contra partida, o protótipo do homem moderno não mais apresenta estas características, pelo contrário, este move-se pelo interesse individual, buscando a satisfação do seu “Ego” e não da sua comunidade, é por excelência indivíduo. 

Neste contexto, a ética contemporânea posiciona-se contra variedade de tendências morais derivadas do pluralismo cultural. No seio de uma mesma sociedade, encontramos correntes morais diferentes que se formam a partir de juízos de valores recebidos por cada sujeito em seu ciclo de convivência. A imparcialidade exigida na ética faz com que nenhuma dessas “vertentes” morais seja aceite como melhor.

Luta, outrora, travada por Sócrates, Platão e Aristóteles contra a sofística – que consistia em estabelecer um Bem Universal a “Eudaimonia”, em contra posição ao relativismo sofista que acreditava que o bem variava de região por região – volta a ser ponto fulcral de pensadores contemporâneos. 

Hans Kung – filósofo, teólogo e escritor suíço – propõem-nos o projecto “ethos mundial”, um espaço para o encontro de pessoas de diferentes culturas, religiões e origem étnica num mundo globalizado. Kung acredita que os valores fundamentais devem ajudar a resolver problemas globais, para além das diferenças culturais, nacionais e religiosas. Kung estrutura a sua linha de pensamento em três temáticas; não se pode pensar numa sobrevivência condigna sem “ethos mundial”, não haverá paz no mundo sem diálogo entre as religiões, e sem paz entre as religiões não haverá diálogo entre as mesmas.

A proposta de Kung parece, até certo ponto, mera utopia, mas quando analisada profundamente observa-se quão importante a mesma pode ser no paradigma actual. Estabelecer um diálogo entre as diferentes culturas, religiões e etnias pode constituir a pedra filosofal na luta contra a crise de valores que apoquenta a época contemporânea.

Entretanto, para a realização do tão aclamado diálogo é necessário que haja, acima de tudo, respeito entre as culturas, religiões e etnias. É primordial que se abandone, a caduca e deteriorada, ideia da superioridade de algumas culturas, religiões e etnias sobre as outras.

Não existem culturas, religiões e nem etnias mais importantes que as outras. Pelo contrário, se por um instante respeitássemos a única dádiva que nos diferencia dos outros animais – que é a capacidade de raciocínio – perceberíamos que no fundo todas as diferentes culturas, religiões, e etnias tendem ao mesmo fim – estabelecer valores, princípios e uma identidade no homem. Portanto, uma união entre as mesmas seria a base para a satisfação dos seus tão aclamados intentos.



                                                                                                   

Bibliografia:

LIMA VAZ, Henrique Cláudio, Introdução a Ética Filosófica, 4 ed. Belo Horizonte, 1999
VAZQUZ, Adolfo Sanchez, Ética, Civilização Brasileira, 2000 

KUTY, Grisault, 50 autores chaves da filosofia, 2 ed. São Paulo, editora Vozes, 2012



KUNG, Hans, Projeto de Ética Mundial. Uma Moral Ecumênica em Vista da Sobrevivência Humana. São Paulo, Paulinas, 1993.  ISBN 85.05. ( Título original: Projekt Weltethos, 1990.)
 



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